Açucena

Os rituais e o tempo

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Tiradentes 2021

“Açucena” de Isaac Donato, na 24ª Mostra de Tiradentes, é a obra que inicia a trajetória para a sempre polêmica seleção da Mostra Aurora. O longa busca uma estética de hibridismo formal onde há uma espécie de assimilação de questões da linguagem como uma forma de escape e reestruturação da própria representação. Está certo que não é algo novo, mas é utilizado de uma maneira curiosa a partir da linha que a obra assume.

Dentro dessa perspectiva, o longa já inicia sua caminhada com uma sinopse, no mínimo, curiosa. E parte em direção a uma construção que se confunde em diferentes níveis dentro de sua própria projeção, em determinado momento o espectador acredita ser um documentário, outros ficção, em especial pela decupagem que a obra faz, mas isso é o que acaba chamando a atenção para si, pois seu encaminhamento é demasiadamente lento, quando não desinteressante. Essa problemática surge particularmente da construção em si, não de seu objeto de filmagem. Com isso, “Açucena” é uma obra que acaba tornando-se frágil durante sua projeção e não consegue se manter após a sessão.

Essa articulação formal que soa interessante até certo momento do filme, entra em um platô de zona de conforto da linguagem, se tornando objeto mimético de sua própria construção. É uma retroalimentação conceitual, que acaba entrando em decadência com o ritmo. Com isso, a Mostra Aurora passa a dialogar com um problema constante em cada edição, uma necessidade de se curvar à um determinismo formal que se torna formulesco com o passar dos anos. Aqui em “Açucena” há algumas aproximações com uma onda de observações no cinema brasileiro contemporâneo, algo que comento há tempos aqui no site, mas essa suposta fórmula acaba surgindo internamente, pela própria necessidade de reforçar os pontos dessa articulação. E aqui, há uma manutenção dessa estrutura, seja em nível de produção ou linguagem. Existe, sim, algo que formaliza um certo encaminhamento do cinema brasileiro para uma frente que parte da crítica vem defendendo há anos. Tiradentes “possui uma estética” rigorosamente transeunte, mas com pontos muito claros e nítidos dentro do balaio todo. Em especial, a Mostra Aurora. Um vício da representação que apoiada por um debate político dessa estética como uma moral possível, se torna base de uma recorrência que se prolonga e transforma a personalidade em desvios de conduta.

A obra é consciente de seus caminhos, mas peregrina por uma lentíssima passagem para alcançar sua própria personagem. E essa estrutura que vai criando um suspense em torno da protagonista, é um artifício interessante, que reforça as transas na construção de uma suposta ficção do real. Alguns planos chegam a compartilhar ares do terror, mas nada disso possui força quando a obra não consegue se aproximar do próprio objeto. É uma espécie de humanismo que não encontra seu lugar na representação e parece buscar constantemente esse objeto. Não se trata, claro, de um processo, já que há uma consciência firme de como essa passagem é feita. Contudo, “Açucena” leva a protagonista ao lugar da representação secundária dentro de sua própria necessidade de afirmação da construção.

Algumas afirmações mais ritualísticas tanto na maneira como o filme prepara a entrada, um clímax da própria estrutura, quanto a o trabalho para a festa, ocorrem com um rigor mais imediato. Já os entornos de Erês e proposições distintas para a festança, acabam surgindo com a moral citada anteriormente e trata a juventude em linhas que quando formalizadas, se dissolvem. Mas não as imagens. E esse é o mérito do longa, que apesar de não firmar um norte, estar sempre a procura de sua personagem e não pavimentar terreno para sua consciência mimética da forma, consegue fixar que essas imagens possuem a força do ritual que despende, uma festa que não se compreende apenas no quadro. O problema é que até a festa elevar juventude em uma forma ritualística, uma parcela já desistiu de encontrar “Açucena”. A Mostra Aurora segue com suas características primordiais, as positivas e negativas. Vamos ver o que mais nos aguarda.


Assista ao filme de 10 a 14 de março na Mostra de Cinema de Gostoso 2021, clicando no link: https://innsaei.tv/#/

Trailer

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