E Tudo Verdade 2021

Balanço e Vencedores do Festival É Tudo Verdade 2021

“Os Arrependidos” e “Presidente” são escolhidos os melhores filmes da edição online que aconteceu de 08 a 18 de abril

Por Vitor Velloso

A 26ª edição do É Tudo Verdade chega ao fim após apresentar uma programação gratuita e diversificada em um formato online, por conta da pandemia do COVID-19. O festival sintetizou parte do momento que o mundo atravessa na contemporaneidade, no âmbito político e na postura formal de produções que visam um debate crítico de uma nova crise global.

Apresentando a caquistocracia norteada por Trump em “Sob Total Controle”, expondo o histórico de corrupção da classe mais conservadora de nosso país em “Golpe de Ouro” e como os ecos se repetem como farsa, lembrando que a luta política possui uma multiplicidade de perspectivas em “Os Arrependidos”, a extrema-direita e seu vício em cercear a liberdade de imprensa em “Mil Cortes”. Foram muitas as facetas exibidas por um festival que concentrou os esforços estéticos do documentário em se reinventar diante de seus temas, em crise profunda e mutante.

De “Alvorada” à “Presidente”, a política norteou uma parcela das obras exibidas e provocou um misto de emoções e reações aos conteúdos expostos. De “Vicenta” à “Leonia, Atriz e Espiã” a ficção e a realidade assumiram estados diferentes a partir da própria matéria. E a já conhecida sessão na programação que se dedica à cultura musical, com “Zappa” e “Paulo César Pinheiro – Letra e Alma”.

São os esforços da produção contemporânea em assimilar uma estética que coloque fim à categorização programática do gênero. O É Tudo Verdade 2021 é a síntese da frente que se posiciona diante da realidade e visa criar um processo curatorial que não exclua as produções de serem exibidas. A edição atual foi uma conscientização dos diferentes meios de exibição que marcaram o presente ano.

A PREMIAÇÃO

A entrega dos troféus e certificados para os premiados brasileiros acontecerá em cerimônia seguida da projeção dos vencedores em local e data a ser divulgado, no segundo semestre, tão logo arrefeça a emergência sanitária pela Covid-19.

Dirigido por Armando Antenore e Ricardo Calil, Os Arrependidos foi eleito o vencedor da Competição Brasileira de Longas ou Médias-Metragens e recebe como prêmio R$ 20.000,00 e Troféu É Tudo Verdade. O filme reconta a história pouco lembrada de ex-militantes presos que, muito jovens, largaram tudo para arriscar a vida por uma causa, foram presos e torturados, e viraram arma de propaganda da ditadura militar.

O júri das competições brasileiras foi formado pela cineasta e artista visual, Sandra Kogut (de Mutum, Campo Grande, Três Verões); pelo professor da Escola de Comunicações e Artes da USP e autor de “Humberto Mauro, Cinema, História” (2013), Eduardo Morettin, e pelo produtor, diretor e presidente da Associação Paulista de Cineastas – APACI, Daniel Solá Santiago. Na justificativa da premiação: “Emblemático, atual e desafiador, “Os Arrependidos” aceita e propõe o enfrentamento de um momento obscuro da história do país durante a ditadura militar. Este confronto com o passado, marcado por uma montagem que contrapõe imagens de arquivo em sua maioria produzidas pelo poder, é marcado pelo estranhamento, reconhecimento, adesão ou indiferença, não deixando testemunhas e espectadores impunes diante das imagens e sons revisitados.”.

Os Arrependidos

Foi outorgada menção honrosa para Máquina do Desejo – 60 Anos de Teatro Oficina, ”por conseguir sintetizar neste fluxo de fotografias, depoimentos, registros de encenação e diversas imagens de arquivo a potência e a radicalidade do artista que, em tempos difíceis e obscuros, caracterizados ou pela violência do aparato repressivo ou pela voracidade destrutiva dos interesses financeiros, encontra caminhos para exercer e expressar a criação, sempre se reinventando a cada golpe, movimento de reinvenção que também é  próprio do documentário”, segundo o júri.

O melhor curta-metragem brasileiro, eleito pelo mesmo júri, foi Yaõkwa: Imagem e Memória, de Rita Carelli e Vincent Carelli, que recebe como prêmio R$ 6.000,00 e o Troféu É Tudo Verdade. Para os jurados, o filme “celebra a importância do cinema no registro de práticas culturais, na disseminação e apropriação de sua técnica e no (re)encontro e atualização promovidos pela exibição de suas imagens a um público sempre interessado na descoberta de novos sentidos. Além disso, há outra dimensão a ser apontada: chama a atenção para a possibilidade de recuperar e preservar, por meio dos filmes, os cantos perdidos pelas gerações mais novas do povo Yaõkwa”.

Ser Feliz no Vão, curta-metragem dirigido por Lucas H. Rossi dos Santos, recebeu uma menção honrosa, pelo “Trabalho com imagens de arquivo que articulam diferentes contextos espaço-temporais. Neles, a presença e a voz da “maioria absoluta”,  para ficarmos em uma das referências trazidas pelo filme, atestam, através do cinema, a permanência ao longo de décadas das diferenças sociais e a necessidade de afirmação de um outro ponto de vista.”, segundo o júri.

Para as competições internacionais, o júri foi formado pela premiada realizadora e diretora criativa da Just Vision, Julia Bacha; pelo head da plataforma Cannes Docs, Pierre-Alexis Chevit, e pelo cineasta, curador de cinema e documentarista iraniano, radicado em Londres, Ehsan Khoshbakht.

Presidente

O grande vencedor da Competição Internacional de Longas ou Médias-Metragens foi Presidente, (Dinamarca/ EUA/ Noruega), dirigido por Camilla Nielsson. O filme fala sobre a missão do jovem e carismático líder Nelson Chamisa, no Zimbábue, para enfrentar nas eleições a velha guarda de Emmerson Mnangagwa, “O Crocodilo”, e as maneiras como seus respectivos partidos interpretaram os princípios democráticos no discurso e na prática.

A justificativa da premiação sustenta que: “Com uma onda de imagens relevantes, impecavelmente montadas para nos levar a um país que parece estar a caminho de sua primeira eleição democrática após anos de ditadura, o filme transforma uma manchete do Noticiário das 8 em uma realidade sentida e vivida pelo povo zimbabuano.”.  O longa recebe R$ 12.000 e o Troféu É Tudo Verdade.

Vicenta

O júri concedeu menção honrosa a Vicenta, de Darío Doria (Argentina): “Em um ano no qual o mundo viu as mulheres argentinas celebrarem alegremente a vitória ao acesso legal ao aborto seguro, “Vicenta” é um testamento visceral do motivo pelo qual esse direito é tão urgente e básico à experiência feminina.”.

A Montanha Lembra (Puede una Montaña Recordar), dirigido por Delfina Carlota Vazquez (Argentina/ México), foi eleito o melhor curta-metragem internacional, e recebe R$ 6.000,00 e o Troféu É Tudo Verdade. O filme aborda as atividades do vulcão Popocatépetl, a partir dos diferentes pontos de vista que apontam para ele: dos camponeses, dos centros de controle de catástrofes e da câmera da diretora.

Segundo o júri oficial, “Através de uma narrativa não linear e de um estilo visual atmosférico e magnético, o filme evoca os conceitos das relações mágicas e mitológicas entre um terreno geográfico e seus habitantes. Além disso, explora as ressonâncias entre a História e a Natureza e, por fim, a ideia da vida e da espiritualidade em todas as coisas, em uma peça cinematográfica bastante panteística e animista.”.

Reconhecido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA como um festival classificatório para o Oscar®, o É Tudo Verdade qualifica automaticamente as produções vencedoras nas competições brasileira e internacional de Longas/Médias-Metragens e de Curtas-Metragens para inscrição direta visando a disputa dos Oscars® para melhor documentário de longa-metragem e de documentário de curta-metragem.

“Esta segunda edição extraordinária, limitada ao universo do streaming, reafirmou o interesse do público por documentários de formas, temas e origens as mais variadas”, resume em seu balanço Amir Labaki, diretor-fundador do É Tudo Verdade. “Da mesma forma, os júris contemplaram a excelência e a diversidade da produção contemporânea brasileira e internacional”.

PRÊMIOS PARALELOS

Na cerimônia também foram anunciados os seguintes prêmios paralelos:

Prêmio Aquisição Canal Brasil de Incentivo ao Curta-Metragem, para o filme brasileiro Yaõkwa: Imagem e Memória, de Rita Carelli e Vicente Carelli, que recebe R$ 15.000,00 e o Troféu Canal Brasil;

Prêmio Mistika, no valor de R$ 8.000,00 em serviços de pós-produção digital, anunciado junto ao prêmio oficial de melhor curta-metragem brasileiro para Yaõkwa: Imagem e Memória, de Rita Carelli e Vicente Carelli.

Prêmio EDT (Associação de Profissionais de Edição Audiovisual), para a melhor montagem de um curta e um longa-metragem, concedidos, respectivamente, para Ser Feliz no Vão, montado por Lucas H. Rossi dos Santos, e para Máquina do Desejo – 60 Anos do Teatro Oficina, com montagem de Joaquim Castro e Lucas Weglinski.

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O FESTIVAL

O festival exibiu, de 8 a 18 de abril, um total de 70 longas e curtas-metragens em competição e hors-concours, de forma gratuita, em plataformas de streaming disponíveis em todo o território brasileiro. Até 8 de maio, é possível ainda acompanhar a programação especial desta edição, na plataforma Spcine Play.

2022

A 27ª edição do festival acontece entre 31 de março e 10 de abril de 2022.

A 26ª edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentáriosconta com patrocínio do ITAÚ, parceria do SESC – SÃO PAULO e com o apoio cultural da SPCINE, ITAÚ CULTURAL e CANAL BRASIL. Realização: Secretaria Municipal de Cultura da Cidade de São Paulo e Secretaria Especial de Cultura do Ministério do Turismo do Governo Federal.

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