Golpe de Ouro

Delfim, Branco e uma enxada

Por Vitor Velloso

Durante o Festival É Tudo Verdade 2021

A campanha “Ouro para o bem do Brasil” é uma das maiores pataquadas de um governo que coleciona histórias de erros crassos e uma profunda destruição nacional. “Golpe de Ouro” de Chaim Litewski busca contar a história dessa campanha que enriqueceu parte dos militares às custas do povo brasileiro, como de costume. 

O documentário vai atrás dessa história, perseguindo ela desde sua fase embrionária até a dissolução. Contudo, seu teor didático permite outras abordagens que não apenas esta centralização unilateral. Assim, o filme fala do golpe de 64, da ditadura em si, de como a burguesia ajudou o governo, dos norte-americanos que saquearam (e seguem saqueando) o Brasil etc. Um dos elementos curiosos de assistir um projeto como este, é ver que o reacionário não mudou em nada após mais de meio século. Esse protótipo ufanista, importado, como uma pirataria ideológica, utiliza-se do conceito de patriotismo para seguir abandonando os neurônios e depositar a culpa de seus erros na “falha” dos demais. Um dos elementos norteadores nesse debate não mudou desde então, os militares. 

“Golpe de Ouro” passa boa parte de sua exibição sem construir grandes laços com questões contemporâneas, mas reserva um curto momento capaz de produzir algumas risadas ou refluxos. A lógica é a mesma, elege-se um inimigo em comum, fomenta a paranóia, abdica do cérebro, finge um patriotismo e eleve de forma irracional seu “Sebastião”. Para este momento nada feliz, o longa consegue uma construção crítica diante dessa realidade de dependência direta na economia brasileira, encaminhada pela burguesia por uma incapacidade histórica de romper seus grilhões com o tio Sam. Nesse balaio todo Castello Branco embolsou uma enxada de ouro. 

Mas esse diagnóstico só é possível com uma vastidão de arquivos que vão adicionando novas camadas à essa narrativa. Algumas escolhas formais acabam complicando a objetividade do filme, excessos de “talking heads” e algumas articulações que mais parecem buscar na nostalgia nacional alguma graça ou “inocência” no ato. E por mais que se possa utilizar a palavra, o longa busca reforçar isso de forma veemente. Seu formato se assemelha à uma reportagem “descontraída” para ser exibida na televisão. Algumas colagens mostrando notícias da época, arquivo de som das rádios, anúncios etc, tudo para concatenar esse espírito ufanista que estava presente no momento, com correspondência contemporânea. Porém, essa falta de desapego com algumas filmagens e uma insistência de “não culpar” da mesma maneira, o que vemos vociferar hoje, soa mais como uma tentativa de relativizar esse mesmo motor que ele denuncia no fim. 

Essa contradição interna de “Golpe de Ouro” encontra um forte aliado para construir uma obra que não consegue uma intensidade em seu posicionamento, sua forma. O caráter definidor mais parece dialogar com as formas televisivas mais expositivas e acabam reforçando determinadas padronizações no campo do documentário contemporâneo. É uma espécie de fórmula didática que tenta encontrar na representação menos direta, um platô de atuação, que até consegue momentos críticos, mas tende a estar ao lado da exposição constante.

Se na vida a primeira impressão é a que fica, no cinema é o contrário. E os minutos finais aqui, podem até divertir bastante pela relação que projeta, mas não consegue compensar os outros minutos de esquemática televisiva com colagens e uma trilha sonora insistente. Alguns de seus entrevistados pouco acrescentam à narrativa, outros são deploráveis mas salientam como era o momento de maneira interna. Essas escolhas e excessos acabam pesando para o espectador que passa a bocejar com a progressão do documentário. O sentimento é de algo que se arrasta e expande suas tentativas para tentar ser o mais completo e acaba esvaziando parte de seu conteúdo por forçar alguns tópicos. 

“Golpe de Ouro” é bastante didático e uma boa ideia para a sala de aula se alguns estiverem disponíveis ao debate, mas deverá fazer alguns acréscimos para fomentar outros “calores”, porque a exposição é uma tônica que acaba findando a exibição.

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