Vicenta

Quanto dura um dia?

Por Vitor Velloso

Durante o Festival É Tudo Verdade 2021

“Quanto dura um dia?”. “Vicenta” de Darío Doria é um projeto desconfortável, duro e que não apenas faz uma denúncia, mas expõe uma situação e debate como um abuso destrói uma vida e qual o papel do Estado em uma situação como esta. É um longa que vai nas entranhas de um problema mundial, sem rodeios diante de uma temática que é dolorosa, mas apenas representa, através da animação, um caso real, na Argentina. 

A escolha da animação fixa na construção do filme, revela algumas intenções por trás de sua feitura. O material de arquivo está presente, sendo exibido em mini tvs, sempre com a intervenção dessa representação. Além de zelar pela imagem central de suas personagens, consegue criar uma atmosfera cruel através da ausência de emoções explícitas. A articulação para evitar uma esterilidade generalizada diante de um caso tão brutal, se encontra na montagem, na trilha sonora e na própria animação. Ao passo que percebemos a ausência de emoções evidentes, somos jogados em um universo de friezas, expostas por uma espécie de sepse em cada um dos cenários. Tudo parece estar corroendo lentamente, perdendo sentido e jogando a partir de uma moral interna das instituições, tendo como “representantes” personagens, ao longo da narrativa. 

 Nos intervalos de cada soco no estômago, a trilha sonora surge como uma navalha que coroa a hecatombe de desgraças e rasga a cena com violinos que arrepiam até a alma. “Vicenta” é um documentário que soa como um terror, melancólico. As tomadas constantes, mostrando a rotina, o lugar onde moram etc, cria uma espécie de enclausuramento. O espectador tem a sensação de nunca sair do lugar, estar girando e perseguindo uma solução que se encontra exterior às suas vontades. A impotência explicita o moralismo e a misoginia de um Estado que se recusa a cumprir uma lei. O resultado disso é o sofrimento de “Laura” e “Vicenta”, tendo seus direitos violentados pelo Estado, negligenciados por uma postura feminicida.

O documentário estrutura uma linha única, que segue de forma rígida uma composição que trata a desolação como uma constante, onde duas frentes de repressão se formam. A memória que não cessa, retorna sempre, é um fantasma que carrega-se para a vida toda. Por outro lado, a negligência estatal, que gera um caso midiático estrondoso, com medidas a serem tomadas.

“Vicenta” não interrompe suas violências, pelo contrário, à medida que se aproxima do fim, as falas em off, refletem sobre “Quantos dias são necessários para superar um abuso? Quanto tempo dura um dia?”. O desdém do Estado é uma facada nas costas, uma secção da necessidade de se fazer cumprir a lei e proteger uma pessoa, para criar uma convenção que está contra as mulheres e a favor dessa progressão cristã dogmática importada, entre valores arcaicos que são categóricos em afirmar que “não ligamos para sua dor”. E aqui, não se trata da luta de Laura e Vicenta apenas, mas de uma necessidade de impedir que isso aconteça novamente, é uma luta pelas mulheres e pela Argentina. Que hoje, possui o aborto como uma realidade.

A história real possui uma questão que deveria ser debatida. Laura, possui uma deficiência mental, logo seu abuso possui é mental e físico. “O PL acata decisão do comitê de direitos humanos da ONU, no caso LMR (2007), no qual a Argentina foi condenada por não garantir um aborto legal à uma menina com deficiência e sua gravidez forçada foi considerada um caso comparável à tortura”. Felizmente algum tipo de punição foi aplicada à um Estado que promoveu um tortura, de maneira circense e midiática, recusando-se à cumprir a lei. 

O filme não é tão objetivo quanto soa ser, mas é violento, melancólico e não é uma experiência agradável, mas sem dúvida, possui uma força que ficará na memória após um bom tempo de exibição.

Trailer

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *