Paulo César Pinheiro – Letra e Alma

Canto brasileiro

Por Vitor Velloso

Durante o Festival É Tudo Verdade 2021

Paulo César Pinheiro é um dos maiores compositores da breve história brasileiro, mas sua importância cultural não possui correspondência igual na filmografia brasileira. “Paulo César Pinheiro – Letra e Alma” de Andrea Prates e Cleisson Vidal tenta cumprir essa lacuna ao tratar da carreira do protagonista a partir de suas criações e causos particulares, perseguição política etc. 

Algumas escolhas estéticas são bastante comprometedoras e sem grandes efetividades, a fotografia em preto e branco busca dar um requinte para uma espécie de nostalgia que parece suspensa em histórias de suma importância para o protagonista, mas com pouco interesse por parte da produção. A questão da morte de Clara Nunes é uma passagem dada em frase, por exemplo. Contudo, o material de arquivo aqui consegue abordar alguns períodos e personagens interessantes da cultura brasileira, ainda que recorra a fórmulas com uma certa facilidade. A linguagem aqui transa com arquétipos pré-estabelecidos do documentário, dialogando apenas com uma frente de fácil comercialização para a TV. Parece uma biografia realizada por um programa televisivo de um canal fechado sobre arte.

Uma das coisas interessantes de escutar Pinheiro está na questão tradicional da cultura popular, entre a Baixada e Zona Norte com pitadas de Angra dos Reis, vejo parte da minha infância reproduzida. Mas suas falas em torno de religião fé e crença, tornam-se síntese para a máxima latina: yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay. “Paulo César Pinheiro – Letra e Alma” vai atrás de alguns registros que nos mostram a mística por trás do personagem, a inspiração inabalável e o brio de um artista que produziu intensamente grande parte de sua vida. Porém, até as partes funcionais do documentário, dependem do carisma do protagonista e de uma boa articulação da montagem na exposição desses arquivos, pois o registro objetivo do filme é muito frágil e parece interessado apenas em enquadrar o momento para vislumbrar essas “escalas de cinza” posteriormente. 

Soa como uma perpetuação de exaltações e homenagens, mas com o protagonista buscando narrar parte desses acontecimentos e explicando aquilo que não pode ser visto por arquivo. As falas de Pinheiros soam demasiadamente soltas diante da unidade do documentário e a montagem não possui um alicerce que consiga direcionar a projeção. Tudo está em segundo plano para a formalização do estetizante contraste que permeia os quadros com o protagonista. Como contraposição a isso, Pinheiro relembra seu passado e conta de ressacas e pataquadas embriagadas, sem o glamour midiático. Ainda assim, “Paulo César Pinheiro – Letra e Alma” parece engessá-lo na padronização formal utilizada para representar todos os outros artistas que passam em especiais de TV. Essa opção acaba fragilizando a própria figura central, por estar nessa recorrência mais basilar e comercial. 

Contudo, não há como negar que o filme consegue adaptar a sua nostalgia de trajetória com a saudade de ouvir suas letras, sem dúvida. Não há como negar que um dos fatores que sustenta a obra é a tradição da oralidade que encontra o sotaque carioca, a rouquidão dos cigarros e o pigarro de uma gelada. É uma proximidade maior com o personagem, não há dúvida. E seus relatos sobre os períodos de ditadura são duríssimos, apesar de algumas risadas possíveis. Mas a insistência em tentar criar algo mais histórico para esse encontro, quase épico, até na costura com o material de arquivo, faz o barato perder ritmo. Em uma das passagens mais divertidas, fala sobre sua avó e a relação da mesma com coisas que estão fora de sua compreensão, mas sente que perdeu parte dessa mística ao estar na cidade. Em seu tom, o respeito, que não permite o medo e uma relação possível, essa ancestralidade que acreditando ou não, a mão se ergue em respeito. 

“A União da Força e da Fé

Na ladeira

Olha o brilho nos olhos daqueles que sofrem

Seu sangue, seus cantos de trabalho

Que deram cor a essa madeira, brasileira

Depois que chove

Algo acontece, magia

Minha mãe, minha filha, imitam minha vó

Dançando descalço em volta da fogueira ô ê ô

As pedras que constroem os muros do Centro

Refletindo o vermelho que ao gueto atinge” Gameleira, FBC.

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