Um Calendário Incompleto

Conexão igualmente incompleta 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o Festival Olhar de Cinema 2026

Um Calendário Incompleto

“Um Calendário Incompleto” foi um dos primeiros filmes que assisti no Olhar de Cinema 2026. Só tê-lo escrito após sua vitória no último sábado é sintomático da relação que estabeleci com o obra, ou que não consegui estabelecer, melhor dizendo. Dirigido por Sanaz Sohrabi, ele foi o grande vencedor em melhor filme internacional, e me pareceu uma comunicação coletiva a respeito dele entre os colegas. Infelizmente, não consegui comungar da mesma opinião a respeito da obra, não por ter uma opinião formada (e negativa) sobre ela, mas justamente por não ter conseguido uma forma de contato com o que assisti. Em determinado momento, tão deslocado que estava, as imagens passaram a não fazer mais sentido para mim, ainda que a produção não tenha qualquer dificuldade narrativa em si.

Em 1980, um disco foi gravado, “Rhymes and Songs for OPEC“. Trata-se de uma ideia para o Coro Universitário da Venezuela em comemoração aos 20 anos da Organização dos Países Exportadores de Petróleo, onde tal coro se reuniu para gravar canções típicas de cada uma das localidades que faziam parte do grupo. Esse vinil, hoje esquecido, acaba sendo o ponto de partida para um roteiro que investiga o petróleo como uma peça política para as lutas de libertação dentro da Palestina, além da construção de um movimento solidário às questões árabes entre os anos 60 e 70. “Um Calendário Incompleto” trata, então, de uma situação cheia de camadas políticas que o filme trata sem didatismo, e por isso o estranhamento natural em torno de tudo que está sendo dito em cena.

O filme mistura as imagens da gravação do próprio disco, material promocional referente a ele (e que hoje poderiam ser definidos como videoclipes), e a própria audição dessas canções, com um trabalho de pesquisa de arquivo bastante rico. O que está em questão não é a qualidade do material redescoberto por Sohrabi e sua equipe, mas da capacidade de absorção do que está sendo debatido ali. Logo, meu material cerebral foi invadido pelo que, para muita gente, deve ser equivalente ao estudo de células de material rochoso provenientes de alguma galáxia vizinha à nossa. Ou seja, ao não conseguir compreender o que estava sendo debatido em cena, a reação do meu corpo foi tornar-me irritadiço ao que era dito.

Sohrabi é pesquisadora de cultura visual, além de cineasta, então o material reunido para “Rhymes and Songs for OPEC” a interessa demais, por tratar-se de um pedaço de História que reverbera nas decisões do planeta ainda hoje. Como cinéfilo e crítico de cinema, preciso me deixar levar pelo que assisto, sem deixar as expectativas (ou suas ausências) falarem mais alto a respeito da apreciação de uma obra. “Um Calendário Incompleto” desafiou, em mim, uma necessidade de conhecimento para o qual eu não estava confortável naquele momento. O resultado durante a projeção foi minha parcela de desinteresse crescer exponencialmente a cada novo dado surgido. Por incrível que pareça, quando o filme resolve contemplar o material gravado quase como de forma etnográfica, acaba me interessando mais.

A partir desse terço final, onde as músicas de origem do folclore de cada país se aproximam de espectador, e passam a ocupar o tanto de sua projeção, ou seja, quando o filme se ocupa precisamente do material de arquivo proveniente de 1980, “Um Calendário Incompleto” passa a me provocar. Essa colocação a respeito de mapear as culturas de várias partes do mundo, ao ponto de um grupo de jovens venezuelanos aprenderem idiomas como o farsi, é uma demonstração de profundo respeito por outra nação. E o próprio projeto soa absolutamente exótico, quase fora da realidade na tentativa de acessibilidade de povos distintos, que o filme embarca nessa ideia e mostra o que está além das nossas cercanias.

O que a direção faz com esse material, no entanto, não é amplificar tal exotismo, e sim trabalhar numa margem de tirar daquelas imagens, daqueles sons e daquela ação sua objetificação. Ainda que na aparência daquele grupo de cantores resida algo de excêntrico, “Um Calendário Incompleto” funciona como o próprio projeto original, que é o de não tipificar qualquer país, ou qualquer campo de debate. O filme quer, também, tornar inteligível uma fatia do século passado que ainda não descansa em paz – ainda que, para quem vos escreve, essa vontade não tenha se concretizado.

3Nota do Crítico51

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