Portobello
Delate, se quiser
Por João Lanari Bo
Festival de Veneza 2025
Marco Bellochio é dos últimos, senão o último, remanescentes do grande cinema italiano do século 20. O infalível IMDb registra 58 entradas de Bellochio como diretor – desde os clássicos “De punhos cerrados”, de 1965, e “A China está próxima”, de 1967, até os contemporâneos “O Traidor”, de 2009, e a série “Exterior Noite”, de 2022, sobre o sequestro e morte do ex-primeiro-ministro italiano Aldo Moro por terroristas da Brigada Vermelha – culminando com “Portobello”, série de 2026 veiculada pelo HBO.
Não é pouca coisa: consistência e ousadia na escolha dos temas, roteiros originais e adaptações literárias, alguns filmes quase autobiográficos, e sempre um olhar político. Uma minibiografia pinçada na internet resume dessa forma a carreira do autor:
O que permaneceu constante (em seus filmes) é a crítica minuciosa de Bellocchio às instituições que controlam os indivíduos e organizam o fluxo de poder: o exército, os partidos políticos, as escolas, o estado e suas leis, a Igreja e a família.
E não deu outra: “Portobello” narra em seis episódios a história verídica de Enzo Tortora, popular apresentador de TV, o qual foi preso em 17 de junho de 1983 acusado de tráfico de drogas e mantido na prisão por 7 meses após falsas acusações de vários pentiti (arrependidos) da Nuova Camorra Organizzata, em particular por Pasquale Barra, Giovanni Pandico e Giovanni Melluso. Esses três, por incrível que pareça, são personagens reais, e destacam-se na série, pelo abstruso de suas personalidades – especialmente no caso de Pandico, reforçado pela atuação de Lino Musella (Tortora, por sua vez, foi representado pelo competente Fabrizio Gifuni, que foi o Aldo Moro da série anterior).
“Portobello” se desenrola cronologicamente, começando no primeiro episódio com um mergulho na produção de maior sucesso de Enzo: o programa de variedades de mesmo nome, exibido na RAI-2. Portobello é o nome de um mercado de rua em Londres, famoso pela diversidade cultural, compra e venda de artigos usados, os mais inesperados. Tortora transportou esse “espírito mercador” para uma hora e meia semanal de entretenimento, com as mais inesperadas atrações: uma mulher que consegue chorar sob comando, palhaços que querem abrir um circo para idosos e um ilusionista especializado em construir um castelo de cartas. Um papagaio funcionava como âncora auxiliar, e a audiência explodiu.
Tortora, jornalista independente de centro-direita com veleidades intelectuais, não se importava em ser tachado de “populista” e “adepto do mau gosto”. Seu programa era assistido por famílias reunidas em torno do aparelho, freiras disciplinadas no convento e até recinto com membros da Camorra. Neste último, o hipnotismo em torno das atrações é tão grande que um rival se infiltra para executar um dos gângsteres absortos na trama. É aí que mora o perigo: Pandico, um assassino do baixo clero da Camorra, diagnosticado com algo entre esquizofrenia e paranoia, é um dos fãs do programa.
Pandico, hélas, está desenvolvendo um ressentimento pelo sucesso e popularidade de Tortora. Uma convergência absurda de eventos — a decisão de Pandico de se tornar informante e um policial que lê um nome errado em uma agenda — desencadeia uma espiral de acusações e falsos testemunhos que levam à prisão do apresentador, uma sucessão no melhor estilo absurdo das narrativas kafkianas. Corrobora essa espiral a obsessão irracional que os promotores do caso, ávidos em mostrar serviço no combate ao crime organizado, exibem ao montar as peças do processo. Delações feitas sem comprovação de fatos são aceitas e incorporadas como se fossem verdades inquestionáveis – e o pobre Tortora encaminha-se para um poço sem fundo.
“Portobello” capta essa tensão e transmite uma inevitável sensação de indignação. Delações são um instrumento jurídico importante, mas sua utilização sem lastro é obviamente inaceitável. Nos anos de 1970 e 80 a Itália atravessava mares bravios de transição, não apenas na esfera policial, mas institucional. Partidos políticos se fragmentavam, a própria RAI via seu monopólio estatal na televisão começar a ruir: o programa de Tortora, mais apelativo e popular, fora do padrão da RAI, era um dos sintomas da mudança. Bellochio sintetizou dessa forma:
Um conhecido sociólogo usou uma expressão um pouco depreciativa para resumir essa fragmentação italiana: “os restos de uma sociedade”, que veio se fragmentando ao longo das décadas, mas que se acalmava diante da TV numa noite da semana assistindo a “Portobello” … e o programa do Tortora chegava a 28 milhões de espectadores.
Agora, um sucesso como esse, capaz de unir a população, é inimaginável.




