O Limite

A linha tênue da moralidade

Por João Lanari Bo

O Limite

O Limite”, minissérie em quatro episódios lançada pela Apple TV em 2021, dorme, apesar de ser uma produção recente, nas prateleiras virtuais da Apple TV. Um comentarista atento na Letterboxd testemunhou da seguinte forma sua surpresa: Me deparei com esse documentário enquanto navegava pelo Apple+. Não fazia ideia do que se tratava, mas assim que li a sinopse, tive que assistir. Foi também o que ocorreu com este resenhista – trata-se de uma série documental que captou momentos precisos de ruptura da linha tênue que sustenta a moralidade institucional do país mais poderoso militarmente da face da Terra, os Estados Unidos da América.

A minissérie revisita um dos casos de crimes de guerra militares mais polêmicos dos últimos anos — o julgamento de Eddie Gallagher, um SEAL da Marinha acusado de assassinar um prisioneiro iraquiano — apresentando múltiplos pontos de vista sobre o que aconteceu e por quê, começando pelo próprio Gallagher. O projeto teve origem em um podcast investigativo de 2021 da Apple Podcasts, que trouxe entrevistas individuais com mais de 50 operadores atuais e antigos, além de áudio do julgamento de Gallagher. O objetivo era abordar a cultura secreta dos SEALs, as unidades militares de elite da Marinha norte-americana, e a batalha em torno do tribunal militar que julgou o caso.

Foram membros do pelotão de Gallagher que acusaram seu chefe de crimes de guerra. “O Limite” aliou a riqueza do material sonoro a uma quantidade de imagens impressionantes filmadas pelo próprio pelotão, diretamente do teatro de guerra. Os fatos aconteceram em 2017, quando os SEALs foram enviados ao Iraque para ajudar na estabilização do país, às voltas com a ameaças do Exército Islâmico de guerra civil e partição territorial. Àquela altura, o ISIS, como era conhecido o “consórcio” de grupo jihadistas, estava prestes a ser derrotado (mas não aniquilado). Os SEALs apoiavam ações do exército iraquiano em Mossul, a antiga Nínive citada na Bíblia, cerca de 400 km a noroeste de Bagdá. Mossul era o último baluarte do ISIS.

Complexidades morais e éticas são um aspecto fundamental nas guerras – existem uma série de legislações, nacionais e internacionais, que se aplicam aos conflitos de modo a mitigar seus efeitos, assim como fornecer parâmetros para construção de casos jurídicos e eventual condenação de militares que se aproveitam do caos para praticar crimes. A Convenção de Genebra é um dos instrumentos mais conhecidos. Nos EUA, regras de engajamento militar são um tema importante na agenda do Pentágono e do Congresso. Ou pelo menos eram: o que “O Limite” revela é a deterioração desses valores, iniciada no governo Trump 1.0, e ampliada no Trump 2.0.

O envolvimento do Presidente Donald Trump durante o processo de Gallagher por crimes de guerra no Iraque, em 2018, é um dos sinais eloquentes da ruptura da linha tênue mencionada acima. Um crítico do insuspeito Wall Street Journal, comentando sobre a minissérie, afirmou, em 2021:

Ocorrendo antes mesmo do início do julgamento, o envolvimento de Trump, certa ou erradamente, não implicava que Gallagher fosse culpado ou inocente, mas sim que os crimes dos quais ele era acusado não importavam. E o mesmo se aplicava ao código de honra militar.

Não é preciso muita perspicácia para relacionar os fatos do Iraque em 2017 ao que ocorre, por exemplo, com as execuções de supostos traficantes de drogas que tentam chegar no EUA em pequenas embarcações através do Caribe. Traficantes ou não, trata-se de execuções sumárias, no estilo dos famigerados esquadrões da morte, que funcionam mais como show off, expressão que significa comportar-se de maneira ostentosa para atrair atenção ou exibir com orgulho uma habilidade, posse ou conquista para que outros admirem. Apesar de Trump e seu incrível Secretário Peter Hegseth se jactarem, as evidências sugerem que o impacto real de uma tal “política” está longe de afetar o volume do drogas que entram em território norte-americano.

Em Mossul, os fatos foram contundentes. Depoimentos de SEALs que presenciaram o assassinato do combatente do Estado Islâmico de 17 anos, ferido e imobilizado, chamado Khaled Jamal Abdullah – Gallagher posou para fotos com o cadáver, enviando mensagem a um amigo dizendo que o havia “atingido com minha faca de caça” – estariam esquecidos, se não fosse pelo esforço dos realizadores Jeff Zimbalist e Doug Shultz, além do produtor Alex Gibney.

O evento mostrou como possíveis consequências legais de atos de guerra passaram para segundo plano na atual conjuntura de poder nos EUA. “O Limite” demonstra em detalhes um dos momentos históricos em que essa nova ética se cristalizou.

4Nota do Crítico51

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