O Jovem Ahmed

Um jovem que padece da própria liberdade

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2019

Exibido na mostra competitiva oficial do Festival de Cannes 2019, “O Jovem Ahmed” apresenta-se como uma análise político-religiosa pelo estudo do caso de um jovem que é bombardeado pela ideia radicalista de missionar  a própria existência. O longa-metragem, dirigido pelos Irmãos Dardenne,  Jean-Pierre e Luc, corrobora características marcantes do cinema dos realizadores belgas, que imprimem em noventa e nove porcento o trio elementar do humanismo, do social e dos efeitos-consequências das ações empregadas (ativas e especialmente as passivas).

É um processo orgânico, de construção pelo questionamento da moral e da ética, elevando a literalidade do que se acha que pode ser até o limite da última potência. O espectador embarca em um manancial crítico de ideologias condicionadas e refugiadas, ora pelo conformismo da crença da religião, ainda que deslocada da contemporaneidade, ora pela necessidade da reafirmação da psicologia reversa (ir contra o senso comum).

“O Jovem Ahmed” é acima de tudo um filme de ator. Idir Ben Addi (ainda que estreante na arte de interpretar – tanto que venceu o Troféu Vertentes em Cannes) carrega com competência e precisão a extrema responsabilidade do protagonista, que é descortinar e confundir conceitos já fabricados pela massificação. Sim, os irmãos cineastas sabem como construir a mise-èn-scene e conduzir a narrativa, que já se inicia na ação, na urgência intensa e passional do que não pode mais esperar nem um segundo sequer.

O longa-metragem é uma fábula política que traz a raiz intrínseca do pensamento da religião islâmica para dentro de uma sala de aula ocidental, focando especialmente em uma cultura que cada vez impulsiona mais o ateísmo e o individualismo. Aqui é elevado o ultra extremismo, de um “muçulmano” iniciante que não aperta mais a mão de mulheres, incluindo da professora “flexível”. Um dos “mandamentos” ordens de Alá. Tudo porque o “profeta mandou”. Nosso protagonista adentra nos rituais clássicos (repetições como se fossem transtornos obsessivos compulsivos), talvez por idealizar um refúgio catártico-protetor (de se sentir o diferente – um certo poder aos jovens – e ao mesmo tempo unido com uma ideia conservadora de transgressão embasada), semelhante as outras venerações. O espectador consegue captar explícitas referências ao alemão “O Estudante”, de Kirill Serebrennikov, que foi exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2016.

“O Jovem Ahmed” é uma jornada-processo de estímulo e aprendizagem. De como lidar com o turbilhão de emoções e novidades que pululam a nova fase de um adolescente. E assim a análise crítica é levantada e posta na mesa para conversa e observação. Ainda que “briguem” pelo direito de poder se comportar como se desejar, nós percebemos que o respeito mútuo é desafiado pela necessidade egoísta do auto-discurso, na maioria das vezes um monólogo, apenas um fala sem escutar. Insultos e xingamentos são desferidos pelo orgulho e “honra” de se estar sempre certo e de se ter sempre a palavra final. Não precisamos ir muito longe, nós conseguimos exemplos palpáveis quando alguém discorda da opinião de outro alguém, especialmente os anônimos do Facebook, que transformam liberdades do pensar em guerras a la Faixa de Gaza, enaltecendo as mesmas teclas em mantras acalorados, desesperados, histéricos e sem a lúcida perspicácia concatenada. Quem nunca passou por isso em uma discussão política de esquerda versus direita? Democrata versus Republicano? Discute-se se “retornamos ao lado primitivo das relações e comportamentos”.

Somos mergulhados em uma viagem de submersão “falsa” ideológica, porque quando a dor aperta, qualquer um clama por qualquer santo que estiver próximo e pede “arrego”. Tudo acontece por retroalimentação de uma loucura incutida, um transe “peça” da mente. A música em árabe, a  palavra “blasfêmia” sempre na ponta da língua. Vive-se em um limbo. Perdido no poder do fazer e não fazer e no agir. “Se eu não for às reuniões, a religião desaparece”, diz e começa a impor aos outros a se acostumar com sua única verdade. Imerge completamente na cultura dos “homens puros” e contra aqueles que “deturpam e ressignificam as palavras”.

“O Jovem Ahmed” aprofunda-se mais no desenrolar da tensão pré-criada e de seus “horários intransigentes” (para rezar). Ahmed perde o controle e está com a mente deturpada “fucked up mind”, entrando na paranoia de proteger a “mesquita, a religião, os irmãos, as irmãs, orações”. É uma lavagem cerebral consentida, como uma experiência LSD de ser. A confusão é tanta que ele é encaminhado ao Centro de Correção Juvenil, e lá alfineta preconceitos e intolerâncias. Nós sentimos o filme. Sentimos os “entre dedos” do psicólogo que media o equilíbrio. E namorar (beijar) é complicado por causa da “saliva impura”. Então nos perguntamos o que o mundo está fazendo com nossos jovens. Quando foi que retrocedemos nossa evolução? Será que isto é o verdadeiro e correto futuro?

Os outros tentam compreender e respeitar a religião, mas até que ponto um limita o outro? São tantas questões retóricas que o filme desperta que nos damos conta que “O Jovem Ahmed” é um verdadeiro estudo de caso de antropologia moderna. Uma obsessão que assola aos desavisados e ávidos por mudanças. Quando uma nova fase, um novo estímulo e um novo despertar acontecem, outras convicções são redefinidas: rezar de dez em dez minutos não é mais importante. O que vemos é um jovem ingênuo, tímido, perdido e inocente em construção moral e física. O que a religião faz com a mente desses jovens? É um filme que tenta unir os dois mundos. Ouvir, entender e traçar normalidades de impuros versus puros; infiéis versus fieis; e medrosos versus corajosos que acham que a vida é expandida demais e que precisa ser freada. Um filme que causa o incômodo pela sinestesia em que se contempla o drama de um adolescente vulnerável em um mundo “gigante de mármore”. E ele apenas um astronauta com a cabeça ainda nas nuvens. 

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