Não Estamos Sonhando
Corpos em trânsito
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra de São Paulo 2026; Festival do Rio 2026
Ulisses Arthur é um jovem realizador que sempre permeou sua obra por uma investigação acerca do corpo, seus movimentos e sua influência no plano enquanto manancial de potência estética. Seus curtas estiveram sempre debruçados nessa matéria prima física, que ele descolou das possibilidades previsíveis para buscar enquanto paisagem visual de uma cartografia do desejo. Não impressiona que sua escolha de estreia em longa-metragem tenha sido a respeito de expandir os limites dessa programação, com “Não Estamos Sonhando”, vencedor de Melhor Longa-Metragem da Mostra Novos Rumos do Festival do Rio 2026. Arthur, na inteligência cênica que já possui, entende que isso ainda é pouco para formar um arcabouço estético, e por conta dessa certeza já empreende muito mais curvas aos seus objetos fílmicos, por assim dizer.
“Não Estamos Sonhando” é um amálgama de acertos ligados a essa filmografia em curtas, que se descortina para os longas com o desafio de expandir a valentia de moldar seus limites à zona de entendimento corporal. Porque não parte apenas do campo narrativo esse experimento, como ele também desenvolve essa espécie de controle estético a quem está em cena, que apresenta sempre doação no que é apresentado em cena. Ou seja, estamos diante de um projeto que salta aos olhos seu ambiente refrigerado de relações humanas, que podem inclusive encenar ditos conflitos explícitos de maneira virulenta, para em momento seguinte os mesmos corpos explodirem em desejo, perdão ou prazer.
Arthur tem muita consciência das engrenagens de sua juventude, e no que isso aplica ao que filmou enquanto primeira experiência na direção de um longa. No entanto, torço para que suas lentes continuem se interessando pela ranhura que ele apresenta no DNA dessa estreia. Sim, temos curvas menos aparadas que outras, e são exatamente essas imperfeições que compõem um mosaico dos mais criativos e orgânicos dentro do cinema brasileiro atual. Assim como em “Os Fantasmas Gentis” seu autor Caetano Gotardo não retirou das cenas os engasgos e micro atropelos dos diálogos de seus personagens (contribuindo muito para a veracidade do que se vê), aqui o diretor expande essa fricção para as durações de momentos, que ao sair do conforto, nos atraem ainda mais pela sua desintegração.
O resultado é um filme que experimenta muito do que produz em seu material cênico e a maior parte do visto tem capacidade de encantamento. Porque há sinceridade desde os grandes gestos, como quando o clímax de violência acontece em uma escadaria, até os mínimos, ao passar uma garrafa de café por um balde, de uma janela a outra. A fotografia de Dani Correia contribui para a fluência dessas luzes e cores em cena, que privilegiam também a fruição desses corpos por uma lente que parece sedenta deles em quaisquer aspectos. Seja em riste para um combate emocional, sejam relaxados após um amor bom, ou ainda tensos diante de uma decepção ou desespero, esses corpos absolutamente reais estão em cena mandando um recado claro ao cinema a respeito de sua construção visual por meio desse portfólio de desejos.
O que poderia resvalar para algo vulgar, é o efeito oposto do que a experiência de Arthur já carrega para dentro das imagens de “Não Estamos Sonhando”; existe a necessidade de tornar tudo o que vimos profundamente chique, sem perder rastros de verossimilhança. Há suor, há lágrimas e há uma clara intenção de filmar a ideia de esforço que tais corpos precisam empreender para a realização de seus atos. Mas também há uma ideia de beleza que o filme não ousa abandonar, criando um invólucro quase hi-tech em determinados pontos, uma maneira de transformar essa inspiração em base para ficções científicas co-optadas pela experiência corpórea.
Além do baile de frescor que é assistir um filme que discute politicamente corpos não hegemônicos e suas relações com o poder instituído, como o campus universitário e os revezes imobiliários em tempos de crise. Todas as questões que o filme apresenta em sua narrativa, da problematização entre estudantes de medicina e os corpos estudantis também a serviço da sensualidade, são escritos com riqueza de aprofundamento, sem cair em limitações didáticas. “Não Estamos Sonhando”, filme vindo diretamente de Alagoas, poderia também ser chamado de um daqueles exemplos que nos reafirmam a capacidade do cinema brasileiro em promover reviravoltas no status quo qualitativo vigente.




