A Aventura Sonhada
Noir em fluxo
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra de São Paulo 2026; Festival de Cannes 2026
Valeska Grisebach teve seu filme anterior lançado no Brasil, contra tudo que poderia ter de provável; “Western” estreou em uma mostra paralela de seu ano no Festival de Cannes, e é uma das mais bonitas representações de uma vida assumidamente solitária. Seu filme novo, “A Aventura Sonhada”, saiu do Festival de Cannes desse ano com o Prêmio Especial do Júri, e parte de um gatilho semelhante para subverter o que passamos a acompanhar, um reencontro nas raias da terceira idade de um grupo de amigos de adolescência de uma região montanhosa e fronteiriça entre a Bulgária, a Turquia e a Grécia. Nos levando por caminhos de subversão, a autora continua interessada no que poucos estão: a comunicação entre pessoas apartadas em definitivo.
Assim como o título de seu filme anterior já apontava, Grisebach se interessa por uma representação cinematográfica que resgate uma ideia de repaginação em torno de códigos estadunidenses de visão de cinema. Em “A Aventura Sonhada”, o conceito de thriller dos mais básicos está sendo gestado no meio da narrativa, quando o protagonista original de seu filme sai de cena, dando vez a uma parceria com Veska. Ela é uma arqueóloga que procura vestígios do passado nos vales ao redor, e se reencontra com um grupo de pessoas que eram caras à ela durante a juventude, e hoje todas estão metidas com o universo criminal. A desconstrução de uma realidade que é, a um só tempo, um resgate do passado e uma recusa ao que é representado no presente, é uma das camadas do filme.
Quando cito o cinema de gênero, o faço porque creio que Grisebach tem interesse genuíno em Alfred Hitchcock e no cinema noir de maneiras explícitas, mas essas escolhas poderiam ser representadas por “Psicose” e “Chinatown”, em detalhe. São pistas narrativas, construções de roteiro e representações em filetes, de como tais cinemas podem conviver hoje dentro de uma proposta menos frontal. Em sua compleição, o roteiro de “A Aventura Sonhada” é passível de existir dentro de uma lógica de, por exemplo, protagonismo para Glenn Close e Willem Dafoe. Mas dentro da seara hollywoodiana, esse mesmo filme seria enxugado no que é exatamente seu diferencial: o cuidado com seus personagens, com a modulação de suas cenas e o relevo de cada momento, que sempre avança a narrativa.
“A Aventura Sonhada” é constituído desse grupo de encontros que acontece de maneira natural entre pessoas que moram em um vilarejo muito pequeno, e onde tais elementos se conhecem há muitos anos – e mais que isso, também aos seus hábitos. É uma sociedade que encapsula muitos erros e muitos acertos de qualquer outra metrópole, mas que estão mais agudos ali pelo espaço mínimo onde esses eventos se dão. Em cada um desses encontros, acontecem micro frases e olhares e situações às vezes sutis, que desenvolvem o mapa geral das relações e dos tratados metafóricos que são tecidos.
Grisebach monta um palco onde a escuta é tão importante quanto a ação própria de cada personagem, ou seja, estamos no lugar de Veska, tentando montar um jogo mental a partir das informações parcas que recebe aqui e ali. Sua estratégia não é exatamente algo concreto, e sim uma porção de possibilidades que o filme coloca pra personagem, do qual ela precisa remontar enquanto narrativa. O resultado disso é uma obra adulta e que não entrega concessões ao espectador do ponto de vista do ritmo tradicional do que é esperado em um cinema manufaturado pelos EUA. “A Aventura Sonhada” realiza seus intentos em cima de um roteiro perspicaz que usa sempre as entrelinhas a seu favor; não é o primeiro plano da contação que importa, mas o que nasce pela margem da história.
O que Grisebach faz, um cinema de fluxo muito particular, porque tenta dentro de suas cores, (re)trabalhar os códigos de um cinema popular de grande alcance, a coloca em lugar praticamente único hoje. “A Aventura Sonhada” mostra isso de maneira exemplar, porque a atenção em sua narrativa é essencial para que o público possa capturar os pontos de virada de sua trajetória. Eles não estão sobre a mesa de maneira ostensiva, mas nascem quase do acaso entre personagens que parecem acessórios, mas agregam complemento ao todo. E isso é exigido a quem se dedica a ele, que sua recompensa virá de maneira não-usual.




