Os Fantasmas Gentis
Gentileza ainda dói
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra de São Paulo 2026
O cinema de Caetano Gotardo, por conta de sua proximidade inicial com Gustavo Vinagre, foi erroneamente conectado ao de seu contemporâneo; quando nunca suas cores foram parecidas. “O Que se Move”, seu primeiro longa-metragem, já mostrava a que textura o cineasta (e roteirista, e ator, e montador, e compositor, ufa!) pretendia seguir, e sua curva de coerência nunca foi ressignificada mesmo quando assinou um projeto em conjunto (“Todos os Mortos“, ao lado de Marco Dutra). Quando entender que a maturidade artística chegou? E como compreender que existe vida além disso? “Os Fantasmas Gentis” é uma porta de entrada para um Gotardo já apresentado antes, mas que aqui é visto com o afinco de requinte que foi vislumbrado em “Seus Ossos e Seus Olhos“.
Naquela ocasião, vi que seus belos esforços resvalaram em algum lugar do cinema de Hong Sang-soo, onde um roteiro só se completa quando novas versões sob um mesmo olhar é retrabalhado, até surgir uma nova configuração de verdade, em cima de subjetividades. Aqui em “Os Fantasmas Gentis”, as relações humanas são novamente a motivação de seu cinema, como tradicionalmente, e o olhar para Inês (que será mais do que uma personagem central, mas essencialmente um a ser analisado) tem uma profundidade não-pedante, porque o filme entende as suas demandas. Isso abre ao filme um manancial de formas de olhar, mas todas levam ao mesmo corpo.
No mais simples possível, Inês é uma mulher de 51 anos que adora karaokês e trabalha como caixa bancária; ama as duas coisas, e se identifica com uma falta de ambição formal ou mais elaborada. O grande desejo é estar feliz vivendo com o que se tem, e isso é a síntese de Inês – até conhecer Hélio de maneira bastante comum. Estruturalmente, “Os Fantasmas Gentis” mostra três momentos do que seria essa abordagem, com tais encontros separados por meses no tempo, onde continuamos a seguir Inês pela sua rotina. Os encontros com o filho que não mora com ela, seu atendimento no banco, sua performance entre os amigos e a maneira como lida de maneira plena com seu óbvio talento para cantora.
Gotardo construiu com fineza extremada um estudo de personagem que não se pretende apenas decupar tal figura. Inês se apresenta através dos detalhes, como quando Hélio se faz presente no diálogo com outrem, o que vai nos apresentando de maneira informal a uma mulher de sonhos complexos em sua simplicidade. O que Inês quer, e o que eventualmente não quer, vai sendo moldado ao rosto de Andrea Marquee, a belíssima intérprete que é um pé de coelho do diretor. Marquee entende por completo cada detalhe daquela mulher, e nos tratando de forma cúmplice ao que ela está compondo, cena a cena. Sem spoiler, mas o fio narrativo de “Os Fantasmas Gentis” só se amarra literalmente no último grande momento, quase uma abertura para os momentos finais.
É nessa amarração final que “Os Fantasmas Gentis” se amalgamam enquanto proposta cinematográfica, e ainda nos propõe reflexões acerca de nós mesmos. Os encontros de Inês e Hélio eles passam informações contrastantes sempre, mas que só o encontro final revela sua natureza; paralelo à isso, essa textura de vida tão saborosa na sua pequeneza mostra ao espectador que o cotidiano também é vida. Com a inspirada fotografia de Cris Lyra (de trabalhos magníficos como “Tea for Two”, “Senhoritas” e “Cidade; Campo“, entre muitos outros), Gotardo faz dessa história maior em torno de Inês algo cujo naturalismo vai pedindo licença devagar para destronar algumas certezas. O resultado transpira profundidade mesmo em seara tão coloquial, mostrando que sua marca registrada é justamente encontrar saídas para a beleza dentro da melancolia mais possível.
Gotardo ainda costura de maneira sofisticada esse jogo de apresentação de uma protagonista, que não se repete, que não empobrece seus ciclos; Inês é mais uma pessoa que percebeu tarde que o tempo não pode ser controlado. O cineasta entra em um campo seleto de profissionais que lêem muito bem as sutilezas de algo trivial, mas para vestir-se de maneira luxuosa. E ainda assim provocar toda a beleza possível na frugalidade das coisas, dos embates, das canções e dos amores.




