Variações sobre um Tema
Caminhos para um fim
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra de São Paulo 2026; Festival de Roterdã 2026
Quantas histórias cabem em uma história cotidiana? “Variações sobre um Tema” ganhou esse ano um Tigre de Ouro no Festival de Rotterdã 2026 explanando essa ideia, mas sem responder qualquer questão. A dupla de diretores Devon Delmar e Jason Jacobs passeia por um vilarejo como quem só tem interesse em filmar suas mínimas existências, para que caiba ao espectador algum julgamento que se faça, e discernimento. Essa pode ser uma leitura possível dos eventos (e a qualquer filme cabe tais subjetividades, ainda mais um como esse), mas o retrato dessa rotina contínua que se quebra ao testemunharmos os preparativos e eventuais comemorações acerca de uma octogenária das planícies, é uma espécie de celebração do existir.
Hettie mora sozinha num vilarejo montanhês, pastoreando um rebanho de cabras. Ao longo do dia, ela vai até a cidade (porque só lá tem um banheiro público), visita uma amiga que mora também nas montanhas e se entrega a um silêncio cortante, não se permitindo dialogar com ninguém. Essa é a protagonista do nosso périplo de pouco mais de uma hora de duração, uma daquelas produções onde existe um propósito por trás da contemplação. “Variações sobre um Tema” é dividido em 5 capítulos, que seguem Hettie por cinco dias distintos, antecedendo uma festa de 80 anos que ela não sentiria falta, até chegarmos na própria comemoração como linha narrativa final.
Nessa aparente simplicidade, vem à tona uma sucessão de encontros muito humanos que vão além das ações da protagonista. São encontros com uma outra tessitura de cinema, mas que não invalida a nossa relação com a narrativa. Porque “Variações sobre um Tema” não é sobre hermetismo e exclusão espectatorial, mas sobre imersão e proposta estética. Delmar e Jacobs são dois jovens realizadores que veem a aventura cinematográfica como um espaço de experimentações de muitas ordens, mas que isso não exclui a sedução que possa nascer da contação de histórias. Se ela aqui não tem um relevo tradicional, talvez seja porque o tempo que sua estrutura contempla seja exatamente esse.
No tratamento do que vemos, nada poderia ser tratado de uma maneira veloz, logo o conceito do que é ‘lento’ não deveria ser aplicado. “Variações sobre um Tema” não carrega consigo algo de inovador no que o Cinema já propôs em outros títulos, mas cabe essa ressalva ao espectador médio, fora da bolha dos festivais. Com o ritmo que é próprio àquela realidade, o filme nos enleva a buscar alternativas para escapar do chamado ali presente. Seus diretores propõem uma lógica interna que precisa ser tratada como a exceção que efetivamente o é, quando a enxurrada mercadológica domina as atenções. E a doçura genuína desse tratamento, do devir dessa protagonista que, à sua maneira, recusa o que é pré-estabelecido, cujas decisões são tão mudas quanto sua comunicação, é um polo de atenção inegável.
Tudo isso é filtrado pela fotografia de Gray Kotzé, que captura os movimentos dos vivos em cena tão bem quanto também a incidência da luz, o formato geográfico das coisas, o percurso dos animais e a energia inteligível de cada ação. O tempo de cada plano e de cada situação, quem dita, é o lugar que abriga todos esses elementos; esse lugar sendo o espaço físico e também o espaço cênico. Nesse sentido, “Variações sobre um Tema” desafia a linguagem documental ao convidar o espectador a se envolver com o que acontece de maneira imersiva, através de sua movimentação gradual de câmera e de um jogo de realidade singular, ainda que profundamente humano.
Ao longo desse breve tempo em que passamos Hettie, seus vizinhos, sua família e seu labor de aparência simples, somos deslocados da urgência tradicional em que vivemos para sucumbir a um recorte de existência moldado por outros códigos. Não existe o tempo como o conhecemos ou as demandas naturais, apenas ali reside uma nova observação acerca do caráter onipresente do Divino. Essa não é uma mensagem óbvia, muito menos “Variações sobre um Tema” se pretende de fundo religioso, mas o arco que se pretende, indo da janela da abertura até o mesmo espaço reencenado para o desfecho, transcende o material. E eleva ainda mais essa viagem cujo mundano está nos olhos de quem vê – e quem disse que a realidade de Hettie não é mais uma?




