Me Cuidem-Se! 6

Meu lugar no futuro

Por Fabricio Duque

Ao longo de quase quatro meses, durante o confinamento contra a pandemia do Covid-19, os ficantes de casa  (assim esperamos com esperança) puderam acompanhar a série documental “Me Cuidem-se!”, idealizada e dirigida pelos realizadores Bebeto Abrantes e Cavi Borges, pioneiros que implementaram a estética quarentena de produção de conteúdo audiovisual. Este texto é sobre o sexto episódio, lançado hoje, às 14:00, nas redes sociais.

“Me Cuidem-se! 6” (leia as críticas das partes 1, 2, 3, 4 e 5) é acima de tudo um auto-retrato -análise antropológico do comportamento do ser humano enquanto indivíduo social perante as necessidades urgentes e obrigatórias do caminho. Desde o primeiro curta-metragem, nós acompanhamos as existências de personagens reais. A narração-preâmbulo de Bebeto, presente nesta última experiência em questão aqui (até porque é dito no final que todo registro será transformado em longa-metragem), quando diz que “um documentarista tem dois desafios: a linguagem e a ética”, precisa-se de um complemento. A arte do documentar também encontra e abraça a história. Um filme perpetua sensações e épocas. E esta crítica não poderia ser diferente.

O tom de “despedida” da série pode soar que tudo voltou ao normal. Que as pessoas podem frequentar, sem máscaras e sem distância, bares no Leblon. Que a vida finalmente encontrou o equilíbrio. Não, meu caro humano terráqueo. Pelo contrário. Quanto mais saímos de casa sem necessidade, mais aumentando o risco de contágio, tanto para nós e especialmente a nosso próximo. É por isso que a colocação de Regina Miranda é pontual. Cadê a “solidariedade”? Cadê o “novo normal”? Cadê a reinvenção da Humanidade (assim mesmo com H maiúsculo)? Nós, alienados em nossos egoísmos imergentes e imediatistas, não encontramos ainda. Ou pior: não estamos muito dando a mínima de sequer procurar.

“Me Cuidem-se! 6” conduz o espectador por um documentário mais clássico. De depoimentos. Mais direto para receber respostas que conceitual para sugerir uma mudança. Sim, descobre-se que temos que ser mais radicais na concretude do olhar que suavizados para não exigir a transformação. Aqui, sete personagens compartilham suas fraquezas, vulnerabilidades, intimidades, angústias e esperanças, no período de primeiro de junho a 8 de julho de 2020. Um prazo maior por causa da “menor quantidade de vídeos recebidos e filmados”.

Como foi dito, nada está estagnado. Pelo contrário, ontem, dia 09/07, contabilizou quase setenta mil mortos, com a taxa de mais de 1200 mortes por dia. Não sabemos o motivo de tanto descaso com a vida humano, propagado pelos próprios brasileiros, que potencializam o negacionismo com “quarentena afrouxada perigosamente”, por causa desse constante “exaurir a todos”.

Cada personagem de “Me Cuidem-se! 6” mostra uma experiência orgânica. Aline deluna canta Chico Buarque como analogia; Amaury de Souza ajuda internacionalmente; Artur Palhano filosofa com realismo; Léo Alves Ribeiro faz sua parte no Morro Dona Marta; Patrícia Niedermeier cria a performance do respiro agonizante (o ar artificial e medicamentoso da bombinha para a asma); Raquel Gandra busca a esperança; e Regina Miranda dá um puxão de orelha nos “rebeldes”.

É sobre “a divergência da própria imagem. Da nossa imagem”. Da imagem que “valida” a pessoa, que “vira uma partícula”. Sobre a reflexão que “o isolamento se torna cada vez maior e mais importante por saber só que você está fazendo isso”. É sobre “ganhar um mundo sem sair de casa”. Sobre buscar entendimento no poeta-escritor uruguaio Eduardo Galeano. Sobre “o exercício de fazer as coisas simplesmente porque se acredita nelas”. Sobre “Eu preciso fazer o filme, eu vou fazer o filme”.

“Me Cuidem-se! 6” é uma imersão de mundo. De não mais “webinar” e sim lutar contra a imposição da depressão coletiva, vivida por zumbis tupiniquins que realmente tentam transcender a Walking Dead. Este é um filme obrigatório para conhecer o que nós realmente somos. E que imagem passamos. De visões deturpadas pela “vida” ditada pela “internet frenética” ou a de aproveitar o momento para nos conscientizar que tudo que fizemos foi em vão, errado e que precisamos retroceder no jogo a fim de refazer nossas ações, pensamentos e atos. “O filme processo reflete esse estágio (intensidade) de coisas. São quase quatro meses de auto-filmagem e isso cansa” e “será este o fim da quarentena?”, finaliza os diretores. Haverá um final feliz? Aguarde as cenas dos próximos capítulos da própria realidade. Com ou sem “Sinal Fechado”, de Chico Buarque. “Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro… E você?”.

 

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    PARABÉNS Fabrício Duque por seus belíssimos e instigantes textos!!! Suas reflexões ja fazem parte do processo!!! Obrigada

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