Me Cuidem-se! – Um Filme Processo

A urgência que olha para dentro

Por Fabricio Duque

Público no Vimeo

Sim. A humanidade foi pega de surpresa com uma pandemia  de proporções mundiais, que mais parece uma ficção coreana realizada por Bong Joon-ho. O medo do apocalipse fechou ruas, escolas, cinemas e “aprisionou” seres humanos em suas casas. Cada um precisou com urgência de se adaptar e (re)aprender a conviver sozinho. Neste imediatismo necessário, a arte não foi interrompida, pelo contrário. Ganhou possibilidades e solidariedade com seu próximo, ainda que o preço de um álcool gel custe em alguns lugares quase cinquenta reais.

Hoje, dia 30 de março, há vinte dias de quarentena, os diretores cariocas Cavi Borges e Bebeto Abrantes coletaram imagens (todas pelos próprios personagens nas cidades do Rio de Janeiro, São Gonçalo e Nova Iguaçu) da primeira semana de confinamento social (de 23 à 29 de março) contra o Covid-19, o Coronavírus que se alastra com terror e mortes. “Me Cuidem-se! – Um Filme Processo” aconteceu sem nenhum encontro presencial entre os membros da equipe. O curta-metragem é o primeiro filme realizado sobre a epidemia que vivemos. Com rito de urgência, levanta uma questão primordial: O que é o realmente o Cinema? Um conceito social? Uma forma?

Por oito personagens, nós espectadores conseguimos olhar para nós mesmos e perguntar qual o sentido de tudo. Para que serve a vida? Em vinte e nove minutos, “Me Cuidem-se! – Um Filme Processo” traça um estudo antropológico sobre nossa existência perante os outros. A estrutura livre, de cinema direto, necessariamente amadora, permite que possamos adentrar intimidades e limitações, cuja palavra de ordem é ansiedade. A obrigação de se estar em companhia com você mesmo todo o tempo. O ditado popular já traduziu essa sensação com “Cabeça vazia, oficina do diabo”. Sim, quanto menos opções, mais reflexões.

Uma das “personagens” reais, Regina Miranda conseguiu reconfigurar e repaginar o “confinamento” com “espaço solidário”, visto que estamos ilhados para proteger nosso próximo. Ficar em casa é habituar-se com o novo lugar, descobrir fragilidades e, isolados, dosar com responsabilidade o sentir a saudade. É “dar valor às pequenas coisas”, de repensar qual nossa liberdade, de nos convencer de que a ida ao supermercado é uma obrigação que não podemos remarcar. Toda narrativa do curta é intercalada pelo forte inspirar e expirar de Patrícia Nierdermeier. Um respiro ao caos, que se potencializa com discursos do Presidente da República, e rebatidos com panelaços na janela.

A cada dia, o medo aumenta. Do contágio. De morrer. De não saber “como será o mundo depois”. De gerar impotências por não “conseguir ajudar aqueles que moram nas ruas”. E assim, alguns não possuem o “direito” das “férias sociais”, precisam “falar” para sobreviver. E ou a percepção de que ainda falta muito mais humanidade nestes indivíduos. Certa vez, uma frase da Mafalda viralizou nas redes sociais: “As pessoas estão com a humanidade baixa”. Sim, talvez todo esse pandemônio seja um aviso de que nós estamos mais e mais sendo “inferno aos outros”. E que para melhorar, temos agora a possibilidade de “absorver essa energia, abraçar, transformar e deixar ir”.

Em “Me Cuidem-se! – Um Filme Processo”, Nós somos convidados a participar de um verdadeiro e real Big Brother Brasil, sem provas de líderes, por ruas, casas, chás, olhares pela janela e conversas com a câmera. A urgência agora está em olhar para dentro, como uma ioga social. Que redefine como vemos o mundo e como o mundo nos acolhe. Esta também é uma crítica urgente, realizada, minutos depois da exibição. Montagem de Wellington Anjos. De hospedeiros parasitas a resilientes Will Smith.

 

Assista aqui

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *