Me Cuidem-se! 2

Da urgência à forma

Por Fabricio Duque

Online

Da urgência à forma. A parte dois do filme-processo (em tempo real) “Me Cuidem-se!” não é mais sobre a “novidade” do início do confinamento. O que era uma simples e existencial adaptação (com o entendimento do que acontecia no mundo), tornou-se uma aprofundada análise sócio-antropológica de nós mesmos, seres humanos que precisam reaprender a estar sozinhos, cada um com sua presença, totalmente solitária ou compartilhada com outros familiares.

“Me Cuidem-Se! 2”, de Bebeto Abrantes e Cavi Borges, com montagem de Wellington Anjos, escancara como é um ser um indivíduo social e todas as questões que o define. Esta segunda parte foi produzida com imagens enviadas por suas personagens, entre primeiro a doze de abril, com a regra básica, rigorosamente mantida, “de não haver nenhum encontro presencial. O que o filme nos apresenta? Um retrato ultra atual do trágico momento em que passamos: uma pandemia que assola e devasta a humanidade.

Os curtas-metragens, que se transformarão em um longa-metragem no final do projeto, podem ser categorizados como cinema-dogma, por embebedar na máxima temática do conceito como instrumento autoral. A narrativa livre, orgânica e caseira do primeiro, neste arquiteta sua construção nas descobertas, modulada por um apuro mais técnico do produto final. Se antes a câmera era hospedeira de vidas em dúvidas e medos, agora é aliada para documentar o processo, comparativo, físico, solidário, acordado e maduro.

“Parece a sensação de um sábado à tarde”, diz-se. “Me Cuidem-Se! 2” pula uma fase no jogo, a do pensar verdadeiro. Sem mentiras. A quarentena também é percebida como uma falsa vida. A de “trocar mensagens o dia inteiro para suprir essa ausência”. Um ciclo vicioso. De se agarrar nas infinitas opções ofertadas pelo universo virtual (como uma defesa de enfrentar a realidade) e se esquecer de utilizar essa devastadora experiência para reconectar o que realmente somos. Tendo a paranoia como nossa aliada (o surto-medo da contaminação do “Acordei com uma coriza e dor no corpo”).

Se estamos no afã quase drogado de existir, como produziremos conteúdo se não saímos da ditadura imposta das redes sociais? Isso é existir? Em “Me Cuidem-Se! 2”, A personagem da atriz Patrícia Niedermeier é um respiro. Uma personificação da concretude sentida pela força abstrata da performance.  Uma terapia de choque. Radical, intensa e esperançosamente viva, ainda que sobrevivendo com máscara, entre faltas de ar (lembrando um respirador artificial e a morbidade de encenar os sintomas causados pelo Coronavírus) e espaços de vidro, e/ou com o cabelo caído que ganha o status de um brinquedo, como a bola Sr. Wilson de “Náufrago”. E/ou com o pulsante e catártico panelaço que inviabiliza o discurso do Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, o “messias que não faz milagres”.

Sim, nós somos confrontados também com nossos medos mais profundos: o próprio outro, se em tempos reais, já dizia Jean-Paul Sartre, é nosso inferno, imagine agora em tempos desesperados. Esse confronto se dá pelas histórias contadas por suas personagens reais, que, com câmera de celular na mão, nos mostra o quão insensível e sem noção é nosso próximo. Ao andar sem proteção, ao lotar espaços públicos (“Copacabana está bem movimentado, na verdade, sem respeitar a quarentena”), ao fazer filas em bancos. Pensa-se se a solidariedade realmente ou se é uma mera utopia inventada. Como podemos obrigar o respeito? Há quem diga que a negação acaba quando um membro estimado adoece.

Mas que é rapidamente debatida co outra cena do curta-metragem: a união para desinfetar as escadas e a comunidade do morro Dona Marta em Botafogo. Eles fazem  o que o governo não faz. Ajudam-se mutuamente em prol do todo. Do coletivo. Com produtos que são usados na China e não os detergentes doados. “As coisas vão te engolindo e você não sabe mais quem você é dentro dessa zona”, diz-se. O paralelo que se traça é a de um cansaço. E de “passar tanto tempo na internet” que causa ressaca. De ações empurradas com a barriga para depois. Com a problematização das crianças em casa sem escola e com crises de choro. E/ou com a necessidade de se buscar o salário andando de ônibus (“tudo normal”, diz-se). Não, meu caro. Uma falsa ilusão de melhora. Fique em casa.

“Me Cuidem-Se! 2” também tem seus alívios cômicos: uma edição  do jornal Panelaço News que “ressurge” o Queiroz e sem a vizinha gospel.  E o Dance Club Cineclube do Hsu Chien. E seu final é sobre a vida em movimento. Que não para. Desperto, levanto, movimento, urino, banho, movimento, como, bebo, movimento, fumo, me entorpeço, reflito… Com Aline de Luna, Amaury de Souza, Arthur Palhano, Hsu Chien, Luana Pinheiro, Patrícia Nierdermeier, Sylvio Lana, Vitor Cardoso e Wesley Teixeira.

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