Me Cuidem-Se! 4

A reinvenção da Humanidade pela Arte

Por Fabricio Duque

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A mutabilidade do ser humano é uma característica extraordinária, porque consegue se adaptar à qualquer tragédia adversa da vida. Ainda que hoje, dia 18 de maio de 2020, as estatísticas, que assustam nossas compreensões de realidade, mostrem que o Brasil se tornou o quarto país do mundo com mais de casos de Covid-19, com mais de 240 mil diagnosticados e mais de 16 mil mortos, ainda assim, acreditamos que a esperança nos salvará, nos sobreviverá e nos manterá sãos. E muito pela ajuda incondicional da arte. Com a necessidade de urgência de ter que (cunho de obrigação social) fazer, “Me Cuidem-se!”, de Bebeto Abrantes e Cavi Borges, foi o primeiro exemplar de obra cinematográfica a ser realizada, produzida e exibida inteiramente pela internet. Com a regra de não não haver nenhum contato físico entre ninguém. Tanto atores-personagens-reais (como Raquel Gandra), quanto sua equipe técnica.

O quarto filme “Me Cuidem-se!”, período retratado de 29 de abril a 15 de maio, tinha tudo para ser ainda mais dark, mais mórbido e mais depressivo, visto a energia-ambiente emanada do lado de fora de nossas lares protegidos; a impotência que nos encontramos em não poder cuidar de nossos próximos; e principalmente o medo espreitado de término de existência. Mas não. Somos confrontados com um caldeirão de sentimentos controversos e desafiadores. Altera-se a forma como nós vivemos e sentimos? Sim, mas a sensação daqui é que conseguiremos. Tudo “Porque Temos Esperança”, citando o nome de um dos filmes de Susanna Lira, ainda que as primeiras cenas deste curta-metragem, em questão aqui, de vinte minutos, sejam fotos de nossos mortos em processo de enterro e/ou o discurso do Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que ainda bate na tecla que este vírus é apenas uma “gripezinha” e que tudo é uma “patifaria”.

Dessa forma, “Me Cuidem-se! 4” (leia também as partes I, II e III) é um condutor de realidade. Uma possibilidade artística de entrar em contato com a humanidade. Um trabalho orgânico de antropologia social, que analisa o mais intrínseco do indivíduo. Uma forma de reconectar quereres e futuros.  Uma oportunidade de acompanhar esse processo de ressignificação pelo estudo observacional das histórias e seu cotidiano. Não. Nada será mais como era. A “normalidade” de antes já foi substituída pela mudança sem volta de remodelar nosso carácter. Deixá-lo mais sociável, tudo porque nos damos conta que precisamos do toque, do carinho, do abraço. De “atravessar” como a artista Regina Miranda.

Mais uma vez, a atriz Patrícia Niedermeier representa a performance da vida. A catarse personificada em tela. A resposta de nossos desesperos. Com a dança de transe-raiva, ao som metafórico do grupo inglês formada em 1976 Joy Division em “Love Will Tear Us Apart” (em tradução literal seria uma “Divisão da Alegria” com “O Amor vai nos separar”). Uma curiosidade: o líder do grupo, o vocalista Ian Curtis se suicidou por não “aguentar o aperto da vida”. Isto nos remete a outra semelhante tragédia, a do ator Flavio Migliaccio, que deixou uma carta dizendo que a humanidade “não deu certo”.

Sim. Estamos impossibilitados de amar, da obrigação de conviver solitariamente com nossos próprios físicos, do mundo em caos total (com seus problemas continuados de saneamento e falta de água). Mas ainda assim acreditamos, talvez nossa salvação e maldição. A vida continua. Já readaptada. A divisão dos remédios, brincadeiras-picardias com o cachorro, o riso, o “movimento contínuo de esvaziamento”. “São esses momentos que fazem a vida valer a pena: comer pipoca com quem se ama”, diz-se.

“Me Cuidem-se! 4” é também sobre o “pretexto para flexibilizar a saudade”, pela percepção de Arthur Palhano. “O preço dessa flexibilização é muito caro, enquanto nós como sociedade”, diz. Entre o depoimento dos sintomas do Coronavírus de Amaury de Souza; o sanitização do Morro Dona Marta (e que no Wikipédia diz que é “um acidente geográfico”) e o discurso de exigência de direitos; o choro-tristeza de Ébrio Ribeiro (“Aventuras e desafios do cotidiano tal qual um filme da Marvel”), o filme é um artefato da arte pela arte. “É incrível como a arte se transforma e entra na nossas vidas, como uma necessidade. Não quero que vocês esqueçam disso. Como a arte é uma ciência tão neglicenciada”, da personagem “alto risco” Regina Miranda, com “vocabulários visuais para romper a distância”.

Este também um filme conversa. Mais filosófico. Mais para agir que somente escutar. “Transformar dor em beleza, a arte existe porque a vida não basta”, complementa a atriz Aline Deluna, que também encerra esta experiência visual cantando o “Bêbado e o Equilibrista”, de Elis Regina. “A internet não dá conta de suprir essa necessidade. É uma moeda de troca virtual. Você está interagindo e não está. As retóricas não vão para lugar nenhum”, Arthur Palhano questiona nosso momento de “perspectiva de fora”. “Uma oportunidade de valorizar o pessoal, a disciplina para rituais e os exercícios de fé”, complementa. “Desculpa, mas não dá mais”.

 

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