Me Cuidem-se! 3

Angústia e melancolia versus o teatrar

Por Fabricio Duque

Online

A terceira parte do filme-processo “Me Cuidem-se!” (leia aqui a Parte I e a Parte 2), que retrata o período de confinamento social, entre 13 e 27 de abril de 2020, não é uma experiência esperançosa, e sim um confronto depressivo, por traduzir com realismo exacerbado e intimista o que acontece com nosso mundo. Sim, o objetivo é esse. Causar a sensação de impotência e tristeza para que assim possamos reacordar nossa humanidade perante nossos próximos (sem expressões como “E daí?”). Sim, o resultado do filme foi concluído com sucesso.

Estou mal e preocupado com o que virá a seguir. Sabemos agora que o Brasil superou a China no número de mortes. Mais de cinco mil. Só que lá tem um bilhão e aqui um pouco mais de 200 milhões. Tudo isso nos faz perder um pouco mais nossa inocência ainda reserva e somos acometidos em um manancial de sentimentos controversos e ainda ininteligíveis. Mas não perderei o foco e seguirei os passos de Regina Miranda, em “altíssimo risco” por ser idosa e artista, que “cedeu a se sentir mal para se sintonizar com a dor mundial”. “Para que eu estou fazendo esses projetos? Estamos nos preparando para esse ano ou para o próximo?”, divaga-se com resignação lamentada, com fraquezas-dúvidas e com “respiração suspensa”.

“Me Cuidem-se! 3”, de Bebeto Abrantes e Cavi Borges, representa a história em tempo real. Suas personagens simbolizam a própria vida em movimento. Não, nada será como antes. Os atores sociais participantes elencam questões observadas. Que os horários acabaram e ampliaram sintomas da ansiedade. Que as coisas se perdem do lugar. Que se acorda de três em três horas. Que os tempos ficam um pouco misturados. Este é o mais narrativo dos três filmes, principalmente pela edição de Wellington Anjos, que inter-posiciona som e imagem, desconstruído e descontínuo como um filme de Jean-Luc Godard, contudo sem perder a característica principal de liberdade orgânica de sua criação, que junta conceito, discurso, forma, terapia, política, sociedade e música.

O curta-metragem é uma injeção de realidade. Que sofre as mazelas e impedimentos do ir-vir. E que precisa “estar bem como se estivesse em um velório”. Um incômodo entre o egoísmo e a emoção, entre patologias sociais e pausas para refletir. “Quando a vida da elite está em risco ela movimenta mundos e fundos para se proteger”, diz-se. A personagem de Patrícia Niedermeier representa a agonia. O desespero. A catarse pela ação radical e desafiadora à razão e à vontade. Um saco na cabeça (mantendo a calma nos penúltimos momentos da morte iminente) e luva com água são os ápices do pedido de socorro. Por favor, fique em casa! Salve uma atriz que se entrega além da arte de ser humana! “Qual o valor da vida? Para Deus, eu era tudo e nada ao mesmo tempo”, diz-se.

O filme inicia-se com a música-tema do curta-metragem “La Jetée” (1962, assista AQUI), de Chris Marker, que conta a história de uma experiência pós guerra nuclear pelo qual usam um homem para realizar a viagem no tempo usando uma série de filmes, fotografias executadas como fotomontagem. Uma ficção científica do passado que encontra nosso presente. E, aqui, pedindo licença pela homenagem, “Me Cuidem-se! 3” também caminha por intercalação de fotos, que expõe outra grave questão social: o lixo acumulado nas favelas. E no meio disso tudo o povo. Sem vírgulas. Apenas estatísticas. Nós estamos abandonados e temos plena noção disso. E é isso que nos afunda mais em desesperanças e em uma melancolia destrutiva e sem fim.

É um lamento compartilhado. Que, sim, faz mal no início, mas que também, cruelmente entendível, nos mostra que não estamos sozinhos neste barco. Que nossa angústia por uma melhora no mundo não é em vão. Muito pela ode apaixonada e apaixonante ao teatro, que vira verbo em movimento, pela atriz Aline Deluna. Teatrar o mundo todo.  E/ou aniversários comemorados em casa, com mãe, cachorra e a poesia da palavra desferida. Nós sabemos que a verdade nua e crua não pode ser suavizada. Mas fazer o que se fechamos os olhos porque gostamos da fantasia de uma felicidade alienada? “Agora não é, agora tem que ser. Será que somos tão primitivos assim?”, Regina Miranda nos “enterra” mais um pouco. Bebeto Abrantes define o filme como “uma dialética entre o virtual e o real” e uma forma de “voltar para a carne”.

“Me Cuidem-se! 3” é também um recado político. De que o fogo aumenta e que chegará um ponto que ninguém mais se salvará. A cada pronunciamento do Presidente do Brasil Jair Bolsonaro, nós somos aprisionados em uma ilha cercada de desumanidades por todos os lados e transformados mundialmente em pragas contaminadas. Sim, aumenta a dose da melancolia. Mas calma gente! A última frase do filme é a vacina de nossa sobrevivência: “juntos nós somos arte”. E vamos teatrar! Em casa, na ficção, no conhecimento legal da palavra democracia (que constitucionaliza que é “governo em que o povo exerce a soberania”) e logicamente na proteção da realidade.

 

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    Brilhante texto!!! Investingando as questões essencias da vida/ filme!
    Salve Fabrício Duque. !!!!!!
    SALVE VERTENTES de Cinema!!!!

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    Critica belíssima!! Investingando as questões essencias da vida/ filme!
    Salve Fabrício Duque. !!!!!!
    SALVE VERTENTES de Cinema!!!!

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