Me Cuidem-Se! 5

Esperando para continuar

Por Fabricio Duque

A quinta parte de “Me Cuidem-Se!” (leia as críticas da parte I, parte II, parte III, parte IV), série de curtas-metragens sobre o cotidiano individual da quarentena, consegue mais uma vez corroborar a ideia da arte como espelho pulsante e orgânico da realidade, que primeiro nos apresenta a surpresa, o desespero, o descaminho e o despreparo, para depois nos mostrar a característica marcante da espécie humana, que é a adaptação. Uma obrigação que defende nossa inquietação perdida e  desestruturada. Talvez isso explique a necessidade urgente (uma antecipação da calma e da “normalidade” – afoita demais, diga-se de passagem) de se reabrir lojas e calçadões em um plano governamental de seis fases.

O que esperar desta continuação artística criada pelos realizadores Bebeto Abrantes e Cavi Borges? Esperança futura ou descontentamento desistente? Uma prova de que a arte salva o indivíduo ou a constatação pessimista que continuamos a ser figuras egoístas e imediatistas em um mundo projetado para fora que rejeita a maturação do tempo? “Me Cuidem-Se! 5” é na verdade sobre a sensação de se “estar de saco cheio” (expressão de Aline Deluna) de tudo, especialmente da “internet frenética”.

“Me Cuidem-Se! 5” é sobre o pós-adaptação, como um resignado apocalipse, em seus tédios, silêncios e angústias. Sim, uma nova fase chegou: a da espera. De que estamos sozinhos tempo demais. “A solidão corrói por dentro”, constata-se. E que precisamos nos acostumar sem a presença do outro, porque somos “seres agregados”. Que vivenciamos tempos estranhos e ainda não presenciados. E que, sim, estamos com o tempo acelerado, talvez para retardar e “enganar” nosso choque de realidade.

Por sete personagens, no período retratado de 16 a 31 de maio de 2020, “Me Cuidem-Se! 5”, além de ser uma observação sobre rotinas, é, acima de tudo, um documento jornalístico, tanto por filmar a história, quanto por informar os acontecimentos da quinzena, como as manifestações que pipocaram no Brasil e no Mundo. Aqui é sobre o cansaço do entender. De aceitar a simplicidade do sol e de que a casa é o espaço a se ficar. “Vamos ver amanhã como fica”, diz-se acreditando que melhores dias virão. Sim, somos o povo do otimismo crônico. Ingênuos por natureza. Talvez por isso, vulneráveis e joguetes.

Enquanto a performance de Patrícia Niedermeier busca a catarse-suspiro, a de Regina Miranda conta as passagens de luz como mortos. Uma metáfora de existência social que “precisa sobreviver”. Pois é, nem o número de óbitos aumentando drasticamente modifica a condução-agir daqueles que deveriam nos proteger. De que nós não somos apenas um povo. Pelo contrário absoluto, nossa pluralidade não só agrega quanto se transmuta em tantas outras. Por que limitar se devemos ampliar nossas liberdades?

Arthur Palhano chega para traduzir em palavras as confusões pensadas de nossa alma. “Reflexões, sintomas e aflições estão mais introspectivas. Um momento de desfigurar e remodelar nossa identidade a cada momento e a cada segundo, como um quebra-cabeças, tudo porque estamos longe das pessoas que nos constroem”, diz tentando o “quadrado” que construiu ao redor de sua autoimagem, entre memórias encontradas por cupins  que se expuseram cansados do confinamento.

Nós estamos há oitenta dias trancafiados em nossos refúgios, com privilégios de não precisar sair, ainda que à mercê de telas pretas que ouvem reuniões ministeriais. É “angústia, ansiedade e o medo constante de que algo pode fugir do controle”. Com ou sem paródia da música “Vamos Fugir”, de Gilberto Gil, por Elbio Ribeiro. Com ou sem meditação. Com ou sem choro entalado. Com ou sem o impacto das consequências financeiras. Tudo é um “convite” a uma melancolia alimentada. Um “vírus” que nos adoece antes do vilão do momento, o antissocial Covid-19, que só de ouvir falar, já faz lavar as mãos e se afastar de todos, inclusive nossos próximos.

Uma febre que aumenta mais a temperatura, esperando assim uma explosão geral. Muito motivado pelos protestos, todos na rua em aglomeração, que entendemos sua necessidade, mas questionamos sua urgência imprudente. Precisamos lutar? Sim. Como? Ficando em casa e agindo ininterruptamente pelas redes sociais. Quando? Agora e até que não tenha mais infortúnios fatais. E que essa é a oportunidade de ouro para finalmente aprendermos a nos tornar seres mais humanos. De que não precisamos de tanto para viver. De que o Brasil pode ser mesmo um sonho “pesadelo”, como no filme “República”, de Grace Passô. Não sabemos. Mas que tudo continua, continua… Me Cuidem-se!

 

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