Mank

Contando o nada pelo vazio

Por Fabricio Duque

Netflix

Sim. A percepção de que o mundo mudou dá-se quando o cinema deixou de ser um ato cinéfilo de amor incondicional à sétima arte para se tornar um produto que atende somente aos quereres subjetivos, instantâneos e determinantes da audiência. O “prazer dos olhos”, como bem definiu o realizador francês François Truffaut sobre a sensação de assistir a uma nova obra cinematográfica, foi substituído pelo entretenimento de massa, em que filmes geram comportamentos casuais, de apenas um momento, sem aprofundamentos e sutilezas, tudo para “desligar o cérebro” no tempo de duração da exibição. O mais recente longa-metragem “Mank”, do diretor americano David Fincher, nascido nos anos sessenta em Denver, Colorado (de “Seven – Os Sete Pecados Capitais”, “A Rede Social”, “O Curioso Caso de Benjamin Button”), que estreou exclusivamente na Netflix, após duas semanas em cartaz nos cinemas brasileiros, pode ser considerado o exemplo mais pertinente e esclarecedor do analisado anteriormente nestas linhas críticas.

“Mank” não só busca a aceitação palatável e passiva de seu público, como, pretensiosamente, com ingênua imaturidade comercial (talvez por acreditar que somente pelo uso de uma fotografia em preto-e-branco se consegue “importar” a nostalgia da época do final dos anos trinta e início dos quarenta), traz à luz uma releitura sobre o clássico “maldito” de Orson Welles, “Cidadão Kane” e como o roteirista Herman Mankiewicz (o ator Gary Oldman) deu origem ao clássico. A estrutura narrativa tenta conduzir o espectador por uma fábula-noir de reapresentação-performance aos olhos atuais. É aí que percebemos que o hoje perdeu o “prazer dos olhos”, que aceita e “engole” sem questionar qualquer gatilho-algoritmo manipulador que se deseja repassar. Este filme tinha tudo para ser uma ode cinéfila. Um acontecendo cinematográfico desde “O Artista”, de Michel Hazanavicius. Mas não. A escolha final resultou em nivelar por baixo aos moldes de outro “Filme-Netflix” “O Céu da Meia Noite”, o também mais recente de George Clooney. O roteiro quer a facilidade não confrontada. A interpretação mais superficial. O  distanciamento mais intrínseco de sua audiência. A sensação que temos é a de ser um filme-teatro ainda em seus primeiros ensaios com falas hesitantes e ainda não naturalmente internalizadas.

É de se estranhar que “Mank”, um filme sobre roteiristas, traduza uma atmosfera forçada, sem lapidação e de clichê fórmula, quase como novela que acontece pela pressa diária a fim de entregar os textos dos capítulos. Aqui, excessivamente didático e auto-explicativo, parece mais que estamos no processo “brainstorming” de criação, em que é possível testar piadas, reações, confrontos e redenções. A edição também acompanha a demanda atual (modernizar o passado pelo contemporâneo): ser ágil como uma piscada, mitigando todo e qualquer sinal de silêncio para dar lugar a compreensão facilitadora. De novo, somos nivelados pelo mais básico de todos os baixos. Ao cavar, nós encontramos o artificial que por sua vez desencadeia o vazio do conteúdo. Ora pela tentativa fracassada de soar cult, ora pelo humor escarafunchado de exagero pastelão.

O filme quer traduzir toda a anarquia de uma época, período que o politicamente correto ainda nem existia, com o moralismo crítico de conservadorismo crescente dos dias atuais. Sim, o mundo também mudou quando o pensar foi impedido de exercer sua função mais básica: a de questionar, avaliar, refletir e formar opiniões, inicialmente bruscas e em desenvolvimento-definições. “Mank” não incomoda tanto por sua narrativa protocolar e de limites diplomáticos (para com as crenças de seu público), mas sim por compactuar com os rumos da nova Era e por não “peitar” vontades e “missões” (mudando e mudando ao bem das opiniões mutantes de sua audiência). De usar e abusar do cinema para denunciar e resgatar a inocência perdida da cinefilia nua, pura e simples. O que “Cidadão Kane” tem de mais especial? A tradução fidedigna e satírica de uma época. Como então refazer esses passos hoje em dia? Não dá, visto que toda e qualquer importação, por mais competência e maestria que se extraia de seus realizadores, já nasce datada e fora de contexto.

Dessa forma, quando “Mank” “suaviza” e opta pela fragmentação de esquetes-instantes está “matando” (mesmo sem perceber) o próprio cinema. Que perde seu propósito de ser um veículo-espelho do mundo real, pela ilusão da ficção. E quando tudo só “existe” neste vazio, então o nada é tudo o que se pode oferecer. Contudo, há algo que talvez possa explicar a forma do filme. A indústria hollywoodiana, que também representa o olhar dos norte-americanos, gosta de dramatizar histórias, potencializando emoções como fio condutor. Aqui, o roteiro foi escrito por Jack Fincher (que faleceu em 2003), pai do diretor David Fincher, como uma “celebração de Orson Welles”, isso desperta uma embasada e compartilhada “afinidade” pessoal. Concluindo, “Mank” precisa mais do extra-campo e de curiosidades-bastidores históricas do que sua própria trama. Na máxima do meio do cinema diz-se que “é tudo culpa do diretor”.

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