Para Sempre Alice

A luta para permanecer sendo

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Toronto 2014

“Para Sempre Alice” do inglês “Still Alice” (permaneça Alice) apresenta-se tipicamente como um filme de ator, neste caso de atriz, visto que todos os coadjuvantes “trabalham” para que um principal possa brilhar. Não é para qualquer um, ou uma. A responsabilidade em expor o talento exigido é tamanha. Julianne Moore aceitou o desafio e construiu sua personagem com delicadeza em um sutil processo quebra-cabeças. É inquestionável sua entrega competente e visceral, já visto em seu penúltimo filme “Mapas para as Estrelas“, de David Cronenberg,também aqui em Toronto, no qual interpreta uma “louca” idiossincrática. Se um membro do Oscar pensasse diferente, logicamente a indicaria, claro, mas pelo anterior. Mas não em hipótese alguma o longa-metragem em questão aqui é ruim. Pelo contrário, podemos compará-lo a “Benjamim Button”, por causa de uma doença que cria a regressão mental. Parte-se da inteligência “consumista” à infância indefesa da vulnerabilidade.

Se no filme de David Fincher a personificação é explicita, em “Para Sempre Alice”, dos diretores Richard Glatzer e Wash Westmoreland (de “Meus Quinze Anos”), a introspecção é silenciosa. Julianne integra um time de atrizes que interpretam com sinestesia emocional. Vivenciamos, sofremos e lutamos por suas ações, assim como seus “colegas” (time de atores que inclui Alec Baldwin e Kristen Stewart) que trocam fluidos equilibrados, gerando uma sensação de simetria naturalista. É real, mas também é cinema, conjugando técnica e desprendimento. Aborda-se o tema do Alzheimer, uma doença neuro degenerativa, talvez um dos medos mais comuns do ser humano: se esquecer de si mesmo e suas memórias, sentimentos, desejos, entrando em um estágio vegetativo da submissão pensativa. O pavor de perder o intelecto, um “tesouro acumulado ao longo da vida”.

“Para Sempre Alice” é a fabula de se continuar sendo quem é. De “prisão” reversa às “conquistas”. De se “retornar” ao “país das maravilhas”. Talvez, esquecer é “libertar” o próprio eu, fornecendo novas perspectivas, mitigando ansiedades e acalmando a “comunicação”. Ser menos. Ser simples. E assim sem perceber, questionar o real sentido da vida. Quantas vezes esquecemos palavras, nomes, telefones. Vivemos em uma verborrágica pista de corrida. Esquecer talvez seja uma dádiva. Nossa fuga. Nossa libertação. Podermos experimentar plenamente nosso mundo único, sem ninguém, lembranças, compromissos sociais impostos. Eu me recordo de minha avó, que nos últimos dias não se lembrava de nada e ria de tudo. Também quero rir. Sem preocupação. Portanto, o Oscar é seu Julianne, não que isso importe, não é mesmo?

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