Infância

Sobre o tempo que acontece

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2015

“Infâncias não são para serem escritas, são boas para os filmes, quando os filmes são ótimos”, disse o próprio diretor Domingos Oliveira em seu livro “Vida Minha” sobre seu mais recente filme “Infância”, “uma crônica de sua infância, que devassa a intimidade da moral burguesa”. O dramaturgo, com o “pé” nos oitenta anos de idade, usa sua conhecida sinceridade sobre as coisas e principalmente sobre sua vida, pouco importando em “esconder” questões idiossincráticas e ou tabus que ocorreram com ele. O “multitarefado” artista (de “Amores”, “Feminices”, “Todas As Mulheres do Mundo”), que mescla a atmosfera textual Woody Allen com o suavizado universo existencialista suavizado de Charles Bukowski, “preenche com todos os tons”, com saudosismo latente e hiperbólico, suas memórias, que “crescem” quando provocadas e que se comportam “descontínuas como um filme de Godard”.

Um ser humano apaixonado, visceral, que ama incondicionalmente, porque senão não ama. “A natureza não tinha o direito de dar aos homens a capacidade de lembrar com nitidez o passado”, diz. Aqui, em mais um filme “hippie” e “autoral”, Domingos preserva suas características ficcionais, com “cara” de documental, narrando o próprio texto e inserindo lembranças pessoais como fotos “novinhas” dele e da protagonista escolhida, a atriz “furacão”, Fernanda Montenegro. “Infância” apresenta-se como um filme de época, nostálgico, com “prazer de controlar as combinações das letras” e “vivendo nos livros, lugar que me sentia livre e só”. Dentro da casa, o tempo parado (a rádio, seus comerciais – por exemplo, das Casas Pernambucanas). Lá fora, a modernidade. Passado e presente “interferindo” um no outro e vice-versa.

No longa-metragem “Infância”, o talento da atriz “Fernandona”, conhecida pelos amigos, corrobora sua maestria já impecável. Está ótima, dramática, sensível, “passeando” entre o diálogo teatro versus realismo, uma “articuladora” política imbatível, com “disse me disse”, fofocas e múltiplas idiossincrasias, lógico. O lanche tradicional da tarde “encontra” o tempo para discutir os problemas dos outros, as “coisas íntimas” e as “maldades sinceras”, como uma criança que não possui “papas na língua”, dizendo sem “freios” o que pensa. Definitivamente, ela domina em sua interpretação. Não há para ninguém. Só ela em cena. Uma matriarca “rabugenta” mandona (“Desde quando mãe mente?”). Papel feito para brilhar de forma “egoísta” pelo “manipulador” roteirista, que também é diretor e também sem limites para “traduzir” fielmente a hipocrisia da alma humana, que se auto-“desconcerta” e faz, de forma ingênua, sua “necropsia”, sem esquecer o “amadorismo” das crianças (interpretações afetadas, mas quem se importa?).

Domingos prefere conteúdo à forma. Texto à embalagem. A música clássica (que não precisa pagar direitos autorais é a mesma utilizada em seus outros filmes anteriores – mas quem se importa?). “Leblon é o fim do mundo”, diz-se com mais picardia textual no discurso que poesia concretista coloquial propriamente dita. “Infância” é um filme que respeita a essência de seus personagens, que conversa com eles, que o permitem usar linguagens vulgares, “sacanas” e sexuais (“coisa que morre, não quero mais”). Trocando em miúdos, é uma ópera cotidiana da vida privada de uma família. A trama usa e abusa do sarcasmo, tido como sinal máximo de inteligência, ao “produzir” embates cúmplices com dramaticidade fílmica, liberdades poéticas da história em si, lamentações, culpas, análises terapêuticas. Outra maestria dos filmes de Domingos é como consegue extrair ótimas interpretações. Do Paulo Betti, outro ator ícone.

Talvez, porque seja um “projeto” despretensioso, feito por amigos para amigos, com “repetições”, “passiflorines”, improvisações, discursos de “Lacerda” e epifanias familiares pontuais. “Que dia! Cara a gente arranja, o pior é conversar”, diverte-se. “No pior das vezes, só humilha quem ama”, rebate-se entre cenas de filmes de Federico Fellini, “que nunca filmou a realidade, e sim o mistério que cerca a realidade” e da “Felicidade Não Se Compra”, de Frank Capra. Concluindo, “Infância” é Domingos e Domingos “escreve com compromisso, e ama sua obsessão” e que segue a máxima de que “o cinema resgata a perdida inocência, dos desenhos animados”, e que “diante da grande tela, somos de novo crianças ouvindo histórias dos adultos queridos”. Recomendado.

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