Esplendor

A poesia conceito dos limites do amar

Por Fabricio Duque

Direto do Festival de Cannes 2017

A filmografia da diretora japonesa Naomi Kawase pauta-se pela transmissão da simplicidade-essência. Suas histórias são pessoais intimistas e buscam o amadorismo intrínseco das micro-ações detalhistas, caseiras e orgânicas da vida. Em seu mais recente filme “Esplendor”, que concorre a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2017, reitera o classicismo temático do sentimento conceitual, pela poesia sensorial, de tempo pausado, para construir a metalinguagem da ficção que interfere a realidade, transmutando enraizadas prisões em liberdades terapêuticas (como por exemplo a câmera que “representa o coração” e a lama que impede o movimento).

Podemos observar mais um elemento característico, que é a fuga ao campo, que representa a tranquilidade e a reconexão com a natureza. O barulho do vento nas árvores, o toque da terra. Tudo é embasado a fim de imergir o espectador em sua inocência perdida (da era do fax), em sua calma esquecida, esta consequência da aceleração do mundo moderno e capital.

“Esplendor” aborda humanizar a cegueira e suas limitações, pela trama que realiza a descrição das sensações de um filme, voltado aos deficientes visuais. Esta narração, adjetivada, poética, sinestésico, sensível, de percepção subjetiva do cotidiano e das emoções humanas, vez ou outra é interpelada pela pressa de “motoristas impacientes”.

O longa-metragem, que arquiteta uma fotografia nostálgica com a vivacidade de uma luz solar pueril, conecta passados existencialistas a outras pessoas, que convivem e compartilham experiências sócio-comportamentais. Sua narrativa, bucólica que pausa o tempo com o intuito de despertar uma possibilidade de descansar da agitação, realiza um trabalho social quando fornece esperança a estes cegos de ter uma plena experiência assistindo a um filme. É o coração apaixonante de Kawase, aberto e dissecado, passional e único. De sentir. Fechar os olhos para “ouvir melhor”.

“Se você é feliz, eu também sou”, diz uma mãe ao alter ego personagem da diretora. Como já foi dito, os elementos orgânicos, neste, são poucos, visto que Kawase busca mais a mitigação da emoção, e mantém comodismo do agir. Todos acostumaram-se com a situação em que se encontram, e em lampejos de esperança de um fotógrafo cego em “Está um dia lindo!”, recebe uma contrapartida “Não está”.

“Esplendor”, para que possa desenvolver, no novo caminho, busca não mais a simplicidade naturalista, mas sim a facilidade. Suas reviravoltas são resolvidas por gatilhos comuns escondidos no apelo sentimental. Não é ruim, mas excessivo. Inicia-se uma história de amor, mudanças nas opiniões, nos processos do filme e mais emoções, que “rasgam” na tela com a trilha-sonora de efeito.

Voltando à metalinguagem. No filme, o cinema está presente e é personagem que dá “mais espaço para suspense e emoção. “Cinema é parte deste imenso mundo”, diz-s. Percebemos demasiadamente uma urgência, potencializar tudo e todos. É a poesia conceito de metáforas existenciais, limites humanos, quereres incondicionais. A primeira sessão à imprensa foi longa e ininterruptamente aplaudida.

Da diretora japonesa Naomi Kawase (de “Sabor da Vida“, “O Segredo das Águas“, “Hanezu“, “Floresta dos Lamentos”, “Shara”). Leia mais sobre O Cinema de Naomi Kawase AQUI. Leia também: “Com a palavra, Naomi Kawase!” “Eu tenho interesse em mostrar nos meus filmes aquilo que os olhos não conseguem captar”, tenta definir a cineasta japonesa Naomi Kawase, que nasceu no dia 30 de maio de 1969, em Nara. Foi criada por sua avó, que a inseria no universo da simplicidade da colheita caseira. Talvez por isso os elementos da natureza são tão importantes em seus filmes.

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