Corações Desertos

Rente ao paraíso 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o Festival Olhar de Cinema 2026

Corações Desertos

“Corações Desertos” é um grande clássico do cinema estadunidense, e isso precisa ser reconsiderado para os cânones de maneira urgente. Primeiro porque é um filme de 40 anos atrás abertamente queer, segundo porque é uma produção de temática sáfica em um mundo onde isso ainda apenas engatinhava, terceiro porque Donna Deitch é uma cineasta com pouquíssimos títulos no currículo (e essa porção indie/maldita de sua carreira pode ter a ver diretamente com isso tudo). Já inserida em devidos lugares de contextualização – incluindo listas referentes a produções queer, lançamento pela Criterion, etc… – a produção marca o início de uma pequena revolução ainda em curso de mulheres compondo o mercado estadunidense, e que são sufocadas pelo poder masculino nesse mesmo meio.

O incríivel é perceber que sim, “Corações Desertos” é um filmaço mesmo, e que ainda precisa ser descoberto até pela sigla LGBTQIAPN+, e que essa ideia de apagamento de cineastas mulheres, principalmente as que desafiam ordens do sistema, mostra-se em constante manutenção em casos como esse. Rodado em 1984, o filme mostra uma sociedade ainda mais conservadora, pois se situa em 1959, um período onde o divórcio ainda começava a ser legalizado, e uma mulher só podia dar entrada nesse pedido em determinados estados nos EUA. Ou seja, além de tudo já citado, o filme ainda é um documento histórico de um tempo que, ainda que já avançado, ainda se desenha de maneira retrógrada pelo que o filme representa.

Melodrama feito de maneira visceral, o filme não peca pelo que está na tela. Deitch tem uma coragem fora do comum, colocando praticamente todo seu elenco em cenas à frente do seu tempo (seja esse tempo os anos 80 ou os 50), e mantém suas convicções dentro do grau de relações estabelecidas entre as personagens, que parecem viver em um campo idílico para os que almejavam um futuro melhor, menos rastreável. “Corações Desertos” é quase chocante pela maneira como criou um olhar de quebra de expectativas diante do que era produzido no sistema da época, e que reverberou para colegas homens como Todd Haynes (em “Longe do Paraíso”), mas que o mesmo controle não é concedido a alguém que tenta mudar essas regras a partir do seu próprio gênero.

Deitch provoca o espectador com o naturalismo empregado à época, e com isso refrigera o olhar de um novo período. Vivian Bell é uma mulher que vai de Nova York a Nevada para conseguir dar entrada no divórcio de maneira segura. Durante o período, Vivian fica hospedada no rancho de Frances, um lugar onde o espírito do tempo rege outras relações. A partir dos encontros com as amigas de Frances, Vivian se reconhece em Cay, a enteada de Frances, e a paixão súbita que nasce entre as duas torna-se maior do que é possível esconder. Impressiona que esse plot seja desenvolvido com absoluto decoro do tempo onde o filme está inserido, e também aberto às liberdades propícias para os 25 anos seguintes, onde o roteiro efetivamente foi filmado.

Além desse escopo, temos uma produção que chama atenção por respeitar as raízes do melodrama, mas tenta colocar essa ação em modo solar, diminuindo o contraste com o peso de um drama que passeia nas entrelinhas com propriedade. A luz de Robert Elswitt (vencedor do Oscar por “Sangue Negro”) é notável dentro dessa concepção, porque filtra os códigos do período com uma coreografia única, onde a luminosidade parece sempre rasgar o que se entendia como razão. A partir da dinâmica entre as personagens e sua relação com o que é sentido, escondido e por fim revelado, “Corações Desertos” ressignifica a tradição de um gênero tido como ancestral dentro dos signos do cinema. Não há sombras, e sim um sol inclemente que incide sobre essas figuras que necessitam de luz para revelar seus próprios desejos.

A ideia de influência de “Corações Desertos”, e das qualidades óbvias que o filme entrega sem precisar criar subterfúgios, está na condução para o desfecho de suas protagonistas, que vivem um impasse que, cinematograficamente, não precisa de solução para construir beleza. Isso tudo para a cena final, onde exatamente sua última linha de diálogo deixa claro onde Richard Linklater encontrou inspiração para o encerramento arrebatador de “Antes do Pôr do Sol”. Em grande parte das vezes, o Cinema não entende a continuidade dos eventos, e a ideia de coloquialismo das ações dos personagens se perde na necessidade de “grande acontecimentos”; Vivian e Cay estão além das convenções de sua época, mas muito próximas do amor próprio que o que sentem proporcionou a cada uma. E do futuro a seguir.

5Nota do Crítico51

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