Balanço e Vencedores da Mostra de Tiradentes 2022

25ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Balanço e Vencedores da Mostra de Cinema de Tiradentes 2022

Confira tudo o que aconteceu no festival mineiro que completa 25 anos

Por Vitor Velloso

A cobertura da 25ª Mostra de Tiradentes chega ao seu fim após a exibição de mais de 100 filmes brasileiros, debates, oficinas e atrações artísticas. No site da Mostra, um pequeno parágrafo sintetizou o que a curadoria propôs com sua temática:

“No ano do Cinema em Transição, vários foram os transes pelos quais passou a Mostra de Cinema de Tiradentes. Celebrando 25 edições, o evento colocou em primeiro plano uma gama diversificada de possibilidades de “trans”, em filmes, debates, presenças, conversas e posições. Foi de fato um ano especial na pluralidade de corpos, afetos, olhares e representações – e, mesmo realizada virtualmente por motivos pandêmicos, conseguiu transmitir seus muitos calores a quem mergulhou junto.”

A escolha de homenagear Adirley Queirós foi certeira na compreensão de que essas transições anunciadas na temática fazem parte de um elaborado trabalho realizado pelo cineasta em modificar o foco do circuito das produções, algo que a Mostra de Tiradentes sempre procurou, não por acaso, o diretor já figurou na programação diversas vezes. E na edição comemorativa de 25 anos, ficou claro que as mudanças recentes nos incentivos para produção audiovisual foram impactantes para a programação. Alguns dados levantados pela Universo Produção mostram com precisão a quantidade:

“Na programação da Mostra, foi perceptível a presença de artistas que se apoiaram nos recursos emergenciais da Lei Aldir Blanc e, impossibilitados de criarem em seus nichos de linguagem, transitaram e se expandiram para o audiovisual, criando novas camadas de poéticas e trabalhos. A curadora Camila Vieira conta do impacto da LAB nos curtas inscritos e selecionados em 2022: “No processo de visionamento, percebemos a presença destes filmes e fizemos o levantamento. Dos inscritos, 19,5% foram realizados com recursos da Lei Aldir Blanc. Dos 97 selecionados, 17 estavam nessa categoria, o que representa 17.5%.”

Tudo Sobre a Mostra de Cinema de Tiradentes 2022

Cerimônia de Abertura da Mostra de Tiradentes 2022

Bate-papo com os Curadores da Mostra de Tiradentes 2022

Confira aqui nossa cobertura completa

Relembre a edição 2021 da Mostra de Tiradentes

As inúmeras transformações que o cinema brasileiro sofreu em virtude do contexto nacional, reforça que a Mostra Aurora é importante para introduzir novos artistas e ampliar a percepção de uma cultura que não está fincada no eixo Rio-SP, ainda que parte dessa fragmentação seja herança de uma formação de concentração da representação e de capital. “Seguindo Todos os Protocolos”, de Fábio Leal trouxe o desejo de romper o isolamento, por conta da pandemia de Covid-19, para satisfazer uma necessidade carnal. “A Colônia”, de Mozart Freire e Virginia Pinho e “Grade”, de Lucas Andrade relembrou parte da tradição brasileira de quebrar barreiras entre o documentário e a ficção. “Sessão Bruta”, de As Talavistas e ela. ltda, apresentou uma produção caseira, sempre por fazer, que permitiu o debate da multiplicidade das possibilidades de realização e o caráter sintético de uma estética em constante transição. “Panorama”, de Alexandre Wahrhaftig, retoma a discussão da propriedade e da divisão de terras, com largo diálogo temático com outros filmes exibidos ao longo da Mostra. “Maputo Nakuzandza”, de Ariadine Zampaulo, trabalhou em torno de uma construção de imaginário, e sua materialização, a partir de uma dinâmica fragmentada, onde novos elementos são acrescentados constantemente. “Bem-Vindos de Novo”, de Marcos Yoshi, permitiu o espectador compreender as inseguranças do diretor diante de uma relação familiar que retorna após 13 anos.

Toda a programação da Mostra Aurora reforçou um encontro de estéticas distintas, onde uma nova geração é apresentada ao público, conscientizando para que possamos compreender diversas formas de produção e exibição, em um entrelace das linguagens, não apenas o cinema em si. Esse debate foi promovido em outras Mostras, que procuraram ressaltar os diálogos com o teatro, video-arte, instalação etc.

‘Esses números – e os filmes contidos neles – fizeram desta Mostra a mais eclética de seus 25 anos, por agregar, na programação e nos debates, essa miríade de formas vindas das artes visuais, artes cênicas, música, performance e outras mais. Para o cineasta Tiago Mata Machado, essas conjugações entre as artes não só é bem-vinda como reflete a impossibilidade de o cinema existir por si só ou de se isolar do que é feito em outras áreas de criação – algo que, em alguns momentos históricos, parecia acontecer.

“Por ser uma arte coletiva, o cinema sempre está sujeito às crises históricas, políticas e sociais. Como vivemos o grau zero da sociedade brasileira, ele está passando por mais essa crise”, afirma Tiago Mata. E a solução, ao menos criativa, de um estado de calamidade cultural como a perpetrada pelo governo federal desde 2019, é permitir-se juntar a outros artistas que passam por dramas similares. “Essa ‘impureza’ faz muito bem ao cinema e é algo que ele sempre soube incorporar”, completa Tiago.”

A Mostra Olhos Livres desta Edição, trouxe uma proposta de variações poéticas, “Germino Pétalas no Asfalto”, Coraci Ruiz e Julio Matos, mostrou como o avanço do conservadorismo no Brasil afetou, ainda mais, a vida de uma população que já era marginalizada anteriormente. “Os Primeiros Soldados”, de Rodrigo de Oliveira, representou a história das primeiras vítimas da epidemia de Aids no Brasil, com um retrato íntimo e melancólico de uma tragédia construída na ignorância. “Avá – Até que os Ventos Aterrem”, de Camila Mota, ampliou a relação do cinema com o teatro, criando traços entre o passado, o presente e um possível futuro. “Você nos Queima”, de Caetano Gotardo, trouxe a subjetividade e a experimentação de forma mais direta, entre amores e formas. “Manguebit”, de Jura Capela, narra a história do movimento musical pernambucano, Mangue Beat, e suas reverberações para a cultura brasileira. “O Dia da Posse”, de Allan Ribeiro, parte da intimidade e mostra como os sonhos se materializam através do registro cinematográfico e seus dispositivos.

A Mostra de Tiradentes mostrou que ainda é possível sonhar com a cultura brasileira, mesmo diante dos imensos retrocessos recentes, das inúmeras tentativas de desmonte e de como a “transição” não deveria ser apenas uma característica debatida no campo artístico.

Entre as recorrentes polêmicas que a Mostra Aurora provoca, especialmente pela disparidade estética entre os projetos, não há como negar que a Olhos Livres segue como o campo de maior efervescência no debate político da realidade brasileira, mas diante do que foi apresentado na atual edição, a Aurora ganhou uma relevante força.

CONFIRA OS VENCEDORES DA MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES 2022

Balanço Geral Mostra Tiradentes

Melhor Longa Mostra Aurora
“Sessão Bruta” (MG), de As Talavistas e ela.ltda;

Destaque Feminino – Prêmio Helena Ignez
Juliana Soares – produtora executiva de “Seguindo todos os protocolos”

Prêmio Carlos Reichenbach Mostra Olhos Livres
“Os Primeiros Soldados” (ES), de Rodrigo de Oliveira;

Prêmio Canal Brasil
“Uma paciência selvagem me trouxe até aqui”, de Érica Sarmet (RJ),

Melhor curta Mostra Foco
“Uma paciência selvagem me trouxe até aqui”, de Érica Sarmet (RJ)

Prêmio Wip Exibição
“A transformação de Canuto” (Documentário, PE) Direção: Ariel Kuaray Ortega e Ernesto de Carvalho

Prêmio Vitrine Filmes
“Mugunzá” (Ficção, BA) Direção: Ary Rosa e Glenda Nicácio

Prêmio Málaga Work in Progress
“Nada” (Ficção, DF) Direção: Adriano Jayme Guimarães e Fernando Jayme Guimarães

Prêmio WIP MEETING 
“O Rancho”(Ficção, SP) Direção: Guilherme Martins

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