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Panorama

A verticalização da memória

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Tiradentes 2022

Panorama

“Panorama” é um dos filmes que mais provoca a temática proposta pela Mostra de Tiradentes à uma contextualização. A primeira cena do documentário de Alexandre Wahrhaftig é a descrição de como o avô de um dos personagens realizava a medição de seu pedaço de terra diariamente. Tal realidade é a representação de como a questão da propriedade está longe de ser debatida com a dimensão que deveria no documentário contemporâneo brasileiro. Não por acaso, o filme procura registrar as modificações sofridas pela paisagem, através do material de arquivo gravado pelos próprios personagens no início do século.

A construção da obra não é progressiva, mas é capaz de compreender como o avanço do neoliberalismo com ampla cobertura do Estado, destrói os direitos dos moradores da região. “Panorama” é hábil em expôr como as memórias se tornam alvos dessa iniciativa privada, que violenta a classe trabalhadora, retira seu direito à moradia e marginaliza a cultura. Em contraste, resta aos moradores o ato de resistir diante dessa brutalidade, seja escrevendo poesia, lembrando do que era Jardim Panorama ou pensando na manutenção da casa para a filha.

Até a construção da capela na comunidade é negada pelo Estado, que força a expulsão dos residentes, em troca de migalhas. O documentário de Wahrhaftig denuncia uma realidade que atinge o Brasil inteiro, ainda que a representação seja regional. Não por acaso, a obra concentra seus esforços em um material que apresenta o local para que possamos compreender o todo. Porém, não se trata de um diagnóstico totalizante da situação, mas sim um filme que se interessa pelas pessoas que ali permanecem, por essas relações e memórias compartilhadas. Está claro que não é propriamente um filme de ação direta, como “A Cidade é Uma Só?” (2011) de Adirley Queirós, o objetivo aqui é traçar as subjetividades de seus personagens através da realidade objetiva. Um exemplo disso, é como os enquadramentos costumam fechar nas expressões cansadas de seus personagens, que a cada trago de cigarro compartilha um momento que traz vida ao desenho-mapa feito na mesa de casa.

De toda forma, “Panorama” possui alguma dificuldade em propor soluções para os problemas que apresenta, o que acaba transformando sua denúncia em uma espécie de ciclo trágico, expondo que toda a memória dos moradores de Jardim Panorama está para ser demolida por esse avanço da verticalização do bairro e de como o direito à paisagem é uma disputa propriamente material. Tal postura consegue mostrar que o registro desse cotidiano e de afetos, possui elos fortes nas lutas políticas, mas essa ligação não é feita pela produção, sim pelos espaços que os personagens debatem seus passados. A montagem possui material para desenvolver uma abordagem que amplie a percepção desse conflito urbano, não apenas nos arquivos da comunidade (e na comparação desses tempos), mas mostrando que essa resistência não se encontra apenas no campo social e cultural. Acaba se tornando um filme que isola a melancolia e se distancia da prática. Não por acaso, os retratos não parecem se encontrar. A sensação que fica é de que não há organização na região, apenas sobreviventes de uma batalha perdida.

O projeto consegue destacar- se dos demais filmes exibidos na Mostra Aurora, por tematizar uma questão de suma importância para a compreensão dos conflitos políticos no Brasil, do passado e de hoje, e por investir em um registro que trabalha o campo social em primeira instância. “Panorama” acaba sofrendo com uma abordagem fatalista e perde força conforme se distancia das possíveis resoluções em uma realidade promovida por um Estado liberal. Isso demonstra a dificuldade de trabalhar a regionalização das temáticas como uma particularidade nacional, uma fragmentação promovida pela própria formação do país. Poucas coisas podem ser tão simbólicas quanto o processo que ocorre no bairro nobre, mas o que acaba marcando mais é a exaustão de seus personagens ao lembrar de um momento onde Jardim Panorama tinha memórias vivas e sorrisos estampados.

3 Nota do Crítico 5 1

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