Você Nos Queima

Reflexos e movimentos

Por Vitor Velloso

Durante o Festival Ecrã 2021

“Você Nos Queima” de Caetano Gotardo está em exibição no Festival Ecrã e não difere muito dos demais projetos do diretor. As reflexões constantes e a inquietação do ócio diante da falta de alternativa. É uma marca que o cineasta possui e mantém em seu novo projeto. E é essa linha de construção que não chega em resoluções, ou recusa mesmo, que sempre me mantém distante de suas obras. Sem mea culpa moral: existe uma falsa sensação de ressignificação que parece mais um estruturalismo pouco convincente que uma liga que mantém o espectador diante da tela. 

O rigor dos espaços até consegue dialogar com o enclausuramento proposto, a agonia dos corpos diante de um imbróglio carnal, mas essas relações são dadas na crença do indivíduo, como um dispositivo pragmático. Parece nunca buscar nada, apenas a inquietação, uma provocação catártica que possa revirar parte do público na cadeira. É a síntese do modismo verbal da crítica cinematográfica: perene. Mas esses devaneios pouco tem haver com uma direção que é capaz de capturar para si o materialismo. Diferentemente de Paula Gaitán que utiliza uma série de recursos para tornar essa reflexão parte de um movimento histórico, “Você Nos Queima” é uma sessão terapêutica de fragmentos narrativos do “corpo em movimento”, como a sinopse já anuncia. Assim, o próprio ambiente urbano é reduzido à pano de fundo para que o espectador possa assimilar os pensamentos do cineasta e contemplar a espera. E nesse sentido, “Espera” de Cao Guimarães é outro exemplo que compreende bem que olhar para dentro não é uma atitude de suspensão, mas sim de aproximação com o mundo.

Mas quando essa dimensão se torna o tom etéreo de uma prosa que se fragmenta para encontrar nos cacos alguma força, fica claro que o sentido deve surgir de maneira passiva, ou seja, a partir da relação do espectador com as exposições. Apesar da afirmação ser de uma obviedade gritante, o cinema de Gotardo aposta nisso como via última da projeção e não como ponto limítrofe da construção. É um platô que boa parte do cinema europeu atingiu há algumas décadas, onde a intervenção fica em suspenso para que o espectador possa divagar com possíveis atravessamentos provocados pelas obras. Por essa razão, a difícil categorização de filmes como esse tem mais a ver com a estagnação das ideias que a sua “pulsante eloquência”. 

O curioso é perceber que o cinema brasileiro caminha cada vez mais para uma perspectiva unilateral das relações, políticas ou filosóficas. Uma singularidade que a objetiva persegue como um viés de rigor do espaço e tempo, que traduz a decadência teórica promovida pelos acadêmicos e por pensamentos que ganharam força a partir dos anos 2000. Por coincidência ou não, o mesmo período do crescimento da burguesia intelectual brasileira e o massacre da mais-valia ideológica levado à tela grande como a “transa tecnológica necessária”. Assim, “Você Nos Queima” é mais um reflexo do aprofundamento da dependência e da resposta imediata que necessariamente: um projeto que falha em si. 

Algumas passagens são interessantes, com música ou algumas falas mais calorosas que descrevem certos momentos que somos incapazes de assistir. O início de “Você Nos Queima” descreve duas fotografias que jamais aparecem, até consegue suscitar alguma curiosidade na forma como essa construção vai sendo feita com imagens que apenas remetem a pequenos elementos, mas tudo se mantém no ciclo vicioso da “agonia do Eros” ou das divagações em torno do corpo em movimento. E essa estrutura já foi homologada pelos acadêmicos à um bom tempo, a partir de um consenso que o movimento é exterior aos seus próprios enquadramentos. Nessa procura pelo “orgânico” que o barato não dá muito pé e o espaço urbano vai se tornando um ambiente de opressão sem grandes reflexões em sua própria representação.

Esses fenômenos não chegam a outros campos.

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