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Manguebit

Esculturas de lama

Por Vitor Velloso

Durante o Festival do Rio 2021

Manguebit

O novo longa de Jura Capela (de “A Serpente“), “Manguebit” estreia no Festival do Rio com o ritmo de uma geração inteira que cresceu escutando que “Recife é a quarta pior cidade do mundo para se viver”. No próprio documentário há um momento em que parte da dúvida envolvendo o “gênero” é sanada, não é necessariamente um ritmo, mas sim uma atitude, um estado de espírito. E essa conceituação é importante não apenas para compreendermos o objeto central do filme, mas também para entender a grande atenção dada à Chico Science.

Mesmo que parte do público já pudesse esperar esse tipo de enfoque, há uma razão esclarecedora nesse ímpeto particular do mangue beat e na própria estrutura do filme que procura categorizar os acontecimentos a partir de uma lógica cronológica particularmente didática. O que chama atenção na maneira como o documentário é desenvolvido, é a maneira que a montagem encontrou de abarcar as bandas que surgiram naquele contexto e trabalhar com parte da realidade social de seus indivíduos, entregando não apenas a relevância em um espectro musical, mas especialmente social. Por essa razão, quanto mais avançamos na projeção, mais somos capazes de enxergar o contexto de uma maneira totalizante, juntando os depoimentos dos entrevistados com as imagens de arquivo e registros contemporâneos. Assim, o público é convidado à “Manguebit” como uma experiência particular do suposto “ritmo”, não apenas uma trajetória histórica.

Porém, existem trechos do longa que passam a se repetir em histórias internas e registros de clipe, fazendo com que haja uma perda considerável na dinâmica, criando a sensação de que a obra não está avançando. Mas rapidamente, quando consegue encontrar uma narrativa para desenvolver, é capaz de criar algumas reflexões sobre as representações ali vistas. A própria conversa que diz que Luiz Gonzaga era psicodélico e compara sua estética com a proposta de Science, gera algum estranhamento inicial mas produz algum conflito frutífero para o público. Tais sequências são motores importantes para retirar o documentário da inércia, ainda que não receba uma grande atenção na série de exposições que toma conta da projeção. Logo, “Manguebit” possui diversos altos e baixos, sendo possível sentir a frustração de notar uma série de ganchos serem desperdiçados. Se pensarmos como um produto televisivo de exposição imediata e didatismo característico, funciona perfeitamente, mas é incapaz de fugir de um grande apanhado que sempre soa como homenagem.

A falta de proposição para um debate dentro das contradições possíveis de serem refletidas no movimento, é uma grande perda para essa organização de ricos registros com personagens ainda mais complexos. Está certo que debruçar-se por longo período se Chico Science leu ou não Josué de Castro, seria uma perda de tempo, porém a reflexão, e a percepção dos contemporâneos ao mangue beat em seu contexto primordial, revelaria a própria sobrevivência da atitude em um momento bastante distinto. Essas ligações temporais não parecem interessar um filme que realmente se propõe à articulação dos acontecimentos e uma espécie de explicação de consciência. Novamente, existe material para tal costura, Mautner, Mestre Meia Noite e toda uma população da periferia de Pernambuco, que passa como objeto dessa história.

A própria proposta estética de “Manguebit”, que procura na colagem e na dinamização dos cortes, uma correspondência direta ao que foi essa grande parábola referencial que marcou o contexto, pode guiar o espectador pelo espírito dominante da marginalidade da “quarta pior cidade do mundo para se viver”, mas parece estar sempre presa à certos padrões expositivos do documentário. Essas decisões acabam mantendo o filme em um determinado lugar comum das últimas produções nacionais que visam expandir as exibições para os canais fechados de televisão, decisão que garante a sobrevivência mas tem um custo particularmente alto.

3 Nota do Crítico 5 1

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