Assalto
Parte do todo
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o Festival de Cinema de Vitória 2026
Não é de hoje que o Cinema utiliza outros elementos para garantir sua realização. A adaptação de livros best-sellers, por exemplo, ou uma versão cinematográfica de um espetáculo de sucesso, uma versão em live-action de um desenho clássico (e agora, nem precisa mais ser clássico), ou uma expansão de um material apresentado em curta-metragem. Nada disso é incomum, mas talvez de uns tempos para cá esses universos tenham ficado tão conectados, que conseguimos perceber já na obra inicial sua função/provocação. “Assalto” foi apresentado com esse desejo no Festival de Vitória, e nem precisava: fica claro pela obra em si que estamos diante de um belo trampolim.
O diretor PH Martins tem habilidade de sobra para se aventurar pelo cinema de gênero, utilizando as bases do cinema policial brasileiro (tradição nossa desde os idos de “Assalto ao Trem Pagador”) para desenvolver uma narrativa ágil, cuja adrenalina faz parte da linha mestra. Apesar de existir uma tradição do passado, o que Martins tenta promover não está aqui, mas poderá estar no futuro. Assistir “Assalto”, o curta, dá uma baita vontade de assistir “Assalto”, o longa – esse é um projeto real, já anunciado. Ao sair dessa sessão, a certeza é de que o tempo deva passar rápido somente para seu diretor, porque as capacidades de entender as molas do cinema de gênero, a partir de uma lógica motivacional (que é onde deve estar todos os gatilhos de um filme), ele já as têm.
O filme rapidamente nos mostra um casal de irmãos tentando fazer valer dar certo uma invasão a uma fazenda, da qual eles sabem que existe um cofre. A partir daí, o filme caminha por uma avenida de situações-limite, todas envolvendo o evento e seus desdobramentos, cuja condução é exemplar. Em cerca de 20 minutos, Martins consegue feitos inacreditáveis com o ritmo e a dinâmica das cenas, em como todos os elementos esteticamente pareçam no lugar; um exemplo é uma cena de assassinato que acontece fora do plano, e que é sentido pelo espectador em toda a sua violência mesmo assim. “Assalto tem vigor de sobra, uma edição que impressiona e um capricho estético que nos faz espantar com o apresentado.
Mas o mais chocante é mesmo o tratamento de desenvolvimento do roteiro. Não há muitos personagens em “Assalto”, podemos até mesmo dizer que a ação é mais concentrada em duas, embora tenhamos 5 atores com trabalhos de atuação ali. São exatamente tais atores, a maneira como o que eles realizam foi concebido por conta de uma base sólida, e como tais personagens estão dispostos em cena, seus encontros, que tornam o processo fascinante. Simplesmente por nesse pouco tempo que o filme tem, todos aqueles tipos são em apresentados e costurados, ao ponto de que a ausência que se estabelece é evidentemente sentida, e precisa ser assim. É um sacrifício, e como tal quem fica precisa ser afetado por aquela partida, e a anuência do espectador é essencial para que tudo esteja conectado nessa relação entre a obra e quem a consome.
Um casal de irmãos e um casal de amigos. Duas pessoas na ânsia de conseguir seu feito e outras duas dispostas a impedi-las; “Assalto” é simples assim, pelo menos na aparência. Quando o roteiro descortinar esses conflitos que reside nas superfícies e adentrar nas suas idiossincrasias, teremos a riqueza do que é visto. Os sentimentos estão passam a se mostrar ambíguos: temos um filme muito bem resolvido em cada uma das decisões, mas ao mesmo tempo estamos diante de uma obra que parece uma fração de algo maior. O quanto do que vemos funciona narrativamente dessa maneira alijada? O quanto dos espectadores que assistirão ao filme sabem disso, e concordam em ficar além da falta do final, mas de um desenvolvimento narrativo pela metade?
Ao mesmo tempo, apesar da subjetividade das relações críticas, acredito que seja virtualmente difícil sair de uma sessão como essa sem empolgação. Assim como tantos outros diretores, e com certeza por motivos diferentes, Martins apresenta um admirável mundo novo, pulsante, e que demonstra um domínio espantoso de seu ofício e sua fatia. Uma obra que nos colega inclusive a par de um debate a respeito de ética, mais uma vez sendo polêmica, ou seja, um outro dado positivo de “Assalto”. Difícil é manter equilibrado nossas percepções entre o que essa obra já é e o que ela pretender ser, num futuro breve.




