Apenas nós

Talentos e perdições

Por Vitor Velloso

Cinema Virtual

“Apenas nós”, de Tom Beard, aparece como uma opção distinta no catálogo do Cinema Virtual. Reforçando toda a construção comum à plataforma, o filme se diferencia por possuir uma consciência maior do impacto de suas imagens. É uma espécie de transa entre a realidade material e o onírico dos desejos, dos medos, de estar crescendo. O processo de amadurecimento aqui é o grande ponto de uma narrativa que muitas vezes está mais concentrada a partir desses pontos diletantes, da estética particular, que desenvolve seus personagens a fim de reforçar seus dramas.

Um desses longas que estão interessados nessa transição, nos conflitos familiares, nas decisões da adolescência, no mundo que parece não comportar suas próprias injustiças. Porém, “Apenas nós” é como um grande álbum de fotografia, que está constantemente se deslocando e perseguindo novas imagens que possam inflamar um certo delírio em torno de suas plasticidades. Em seu aspecto meramente primário, as coisas até são belas, mas a direção não consegue encontrar um foco aqui. Tudo parece deslocado e perdido. Algumas das histórias são verdadeiramente interessantes e diversas vezes a frustração é o que acaba sobrando, já que as sequências elas possuem um fim nelas mesmas. Quando há um espaço de diferenciação maior e alguns de seus personagens passam a criar laços mais sólidos, o longa passa a ganhar corpo e estrutura, ao ponto de realmente nos importarmos com os destinos daqueles jovens.

Contudo, a realidade é estarmos em ciclos de descobertas e violências cotidianas para vermos “belas”, e inócuas, imagens se somando constantemente. É o oposto do sublime e a mesmice programática do que padronizou-se como “belo”. Não será surpresa ver elogios escandalosos para a fotografia, pois é o que há com maior vigor. De toda forma, o espectador que procurar os dispositivos na intenção de se emocionar com a trajetória aqui projetada, pode acabar se decepcionando com a fragmentação excessiva dos eixos dramáticos. É relativamente comum perceber que estamos perdidos naqueles espaços e histórias. A montagem busca acelerar suas passagens, procurando novos tempos de imagens. É um coming of age tentando se decidir se é mais Lynne Ramsey ou Malick. Com uma estética menos blasé-canalha que Ramsey, e menos etérea que Malick, o barato é material, é arthouse de baixo escalão, mas é um daqueles filmes que se fosse distribuído pela A24 com alguns modificações, seria ovacionado por um nicho, exceto no trecho em que a superação se torna algo mais carnavalesco.

Se na tempestade o espectador pode ficar confuso com os espaços e os tempos de “Apenas nós”, no restante a sobriedade pode matar de tédio, diagnóstico comum nas reproduções estilísticas de um breve movimento contemporâneo que tem mais fé no vazio estruturalista que no desenvolvendo da forma em favor de um drama que seria interessante com algum desenvolvimento mais sólido. A maior desvantagem de Beard, é que seu fluxo de pensamentos por imagens parece atrapalhar a ordem de pensamento da montagem, que até se esforça para organizar as coisas, mas acaba sempre retornando em uma falta de repertório que passa a ficar gritante próximo à metade da projeção. As distâncias do prosaico com o conflito e suas resoluções começam a incomodar. A sensação é que estamos vendo algo em desenvolvimento, caótico e cansativo. A falta de liga nos diversos “simbolismos” propostos pelo diretor vão se perdendo nessas negociações do caráter tacanho das situações.

Em pequenos lapsos, quando “Apenas nós” lembra da temática da solidão, as coisas voltam a funcionar minimamente, aliás, é o grande tema basilar que envolve o filme. Esse sentimento de solidão que a família se coloca ao atravessar um terrível momento. As individualidades começam a ganhar forma e os conflitos se dinamizam, mas tem que ter muita paciência para chegar até a resolução de algumas dessas pontas, pois na maioria das sequências estaremos divagando pelos corpos, sonhando com o etéreo e sofrendo com a tentativa de arthouse um tanto fajuta, genuína tampouco, mas com algumas interpretações que sustentam bem as pontas por aqui, além disso, Beard possui um boa noção visual, só tem que entender como cadenciar esse ímpeto.

Trailer

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