Virtuosas
Desejos de poder
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o Festival de Cinema de Vitória 2026; Festival do Rio 2025
A estreia de Cíntia Domit Bittar em longa metragem não poderia ser com menores níveis de audácia do que em “Virtuosas”, produção que flerta com nosso presente político, e que também engatinha no horror como parte da cinematografia nacional faz atualmente. Congraçar tantas ideias pode não ser a coisa mais prudente a ser feita, ainda mais quando estamos estreando, mas Bittar não é qualquer diretora, nem está afim de agradar alguém gratuitamente. A coragem é proporcional à sua vontade de cutucar a indústria atual com uma provocação que desafia ritmos e propostas pré concebidas. Ao fechar-se o ciclo, vêm à superfície seus excessos e as possíveis ausências, mostrando que mesmo quando calculados, riscos podem provocar ruídos.
O filme acompanha uma espécie de influenciadora milionária que promove encontros entre mulheres belas, recatadas e do lar, para se tornarem cada vez mais reféns dessa alcunha inglória, ainda que por escolha própria. Aos poucos, a rede que tenta costurar se amarra contra ela mesma, em uma sucessão de eventos que demonstram a derrota irrestrita de um projeto de país exploratório. “Virtuosas” parte de um recorte social que conseguimos enxergar por aí, em nossa esquina ou em no congresso, mostrando uma classe intelectualmente dominante de intenções escusas que se embrenha facilmente dentro das brechas emocionais do alheio. O que se revela é que a fome de poder se mostra compenetrada em resultados, e que eventualmente naufraga – para nossa tranquilidade.
Após sua celebrada carreira como curta-metragista, Bittar explora uma espécie de horror no cinema que não é exatamente um horror social, mas um horror político, literalmente falando. Um horror que não é capaz de ser compreendido por muitos outros países que não o Brasil, porque se debruça sobre lógicas e acontecimentos caros ao nosso espectador. O filme é um retrato cheio das próprias contradições de uma fatia da extrema direita que prefere ficar à margem dos eventos, porque já entendeu que assim conseguirá passar despercebido, e isso significará maiores dividendos futuros. Virgínia (que nome né?) Heinzel é uma dessas figuras ainda mais nocivas porque não sabemos até onde ela pode ir para alcançar os objetivos.
Bittar carrega seu filme de cores neutras, talvez para retirar parte da personalidade de quem o protagoniza, tornar seu ambiente asséptico e anti-naturalista. Todas as cores de “Virtuosas” partem de um cenário desprivilegiado de vida; parecido com o clássico “Mulheres Perfeitas”, dos anos 70, o que motiva o treinamento que o filme mostra é uma tentativa de retirar qualquer traço de desejo próprio da protagonista às suas coadjuvantes. Talvez por isso mesmo ela se ressinta muito de estar, nas ações que o filme mostra, incomodada com o trio que reuniu, dessa vez. As três personagens são poços de personalidade e quebram as expectativas geradas, mostrando que existia uma seara de ascensão entre suas comandadas – ninguém mais terá cabresto, será isso que o filme brada?
No elenco, temos as protagonistas Bruna Linzmeyer e Maria Galant (formidável revelação em “Irmã“, de 2020) realizando um trabalho de conexão mútua, uma performance alimentando a outra, em um jogo de provocações cada vez mais intenso. A dona de “Virtuosas”, no entanto, atende pelo nome de Juliana Lourenção em um dos desempenhos mais assustadores da temporada. Retirada de uma espécie de mitologia de corpo e entrega que passa pelo Jordan Peele de “Corra!“, a jovem atriz entrega todo crescente paranóico que embasa uma bela interpretação do horror em momentos de arrepiar – estando ela no plano principal, ou como na apavorante cena em que vemos seu corpo levantar da cama. Em tempos de Amy Madigan e Inde Navarrete, Lourenção é nossa versão tupiniquim dos grandes momentos do horror na atualidade.
O que as protagonistas de “Virtuosas” não percebem é seus amplos desejos de alcançar suas metas, independente do que isso signifique. Com métodos diversos mas vontade similares, existe uma sede do feminino em não precisar mais da voz masculina para escalar os objetivos, sejam eles obscuros ou inocentes. O que Bittar filtra em seu filme é como essas vozes hoje não conseguem mais esperar por um espaço vago; elas os criarão. Ainda que falte ao filme um empuxo que o coloque mais frontalmente na realização de suas ambiguidades, parecendo cercar os reais focos até o limite, isso não acomete suas personagens, que nascem donas de suas vontades.




