Uma Vida Oculta

Dois contra todos

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2019

Nós seres humanos nunca deveríamos julgar escolhas e decisões de outros seres humanos, visto que cada um possui a unicidade da existência. De idiossincrasias adquiridas por vivências pessoais. Principalmente quando são cineastas que já nos ofertaram “Além da Linha Vermelha” e “A Árvore da Vida”. Sim, mas nesse caso precisamos falar sobre o realizador Terrence Malick, que criou um gênero particular em suas narrativas: o de envolver o espectador na epifania, o conduzindo pela atmosfera etérea e sensorial. É como se o tempo fosse suspenso e adentrássemos em um portal cósmico de percepção fora do corpo e altamente metafísico.

Exibido na mostra competitiva do Festival de Cannes 2019, “Uma Vida Oculta” corrobora a técnica criativa de experiência. Nós somos convidados a sentir a fluidez da trama, com sua câmera subjetiva, existencialista e de naturalidade estilizada. Mas a crítica do início deste texto é sobre a padronização da invenção, que gerou um modelo já previsível com seus gatilhos comuns, incluindo a primeira cena acontecer em tela preta com descritiva narração em off, tentando assim a cada filme reinventar a própria roda já definida.

O longa-metragem, baseado em eventos reais, não é ruim. Pelo contrário. Mas ao focar exclusivamente na imersão imagético (com seu incrível visual panorâmico, traduzido por sua lente olho de peixe – fornecendo uma visão mais próxima aos olhos) os atores precisam se desdobrar para construir credibilidade em seus papéis. Aqui, o conto é sobre uma comunidade interiorana envolta a vulnerabilidades ditadas pelo nazismo em uma Áustria de 1939, que desequilibra sua ordem bucólica das simples plantações campestres.  A guerra chega e a câmera (que vai e volta) acompanha as memórias de suas personagens.

“Uma Vida Oculta” é acima de tudo sobre o amor, que sobrevive por narrações sussurradas de um casal, que se questiona “O que aconteceu no nosso país, na terra que amamos?”, antes do inverno anunciar que está chegando. É também a arte de ser humano enquanto indivíduo social, precisando assim lidar com as covardias de seus “próximos”, que no mínimo sinal de fraqueza, deixam máscaras caírem e expõem o que realmente são. A comunidade muda. Torna-se hostil e primitivamente vingativa (acreditando em uma causa alheia). “Cuidado! Quem são os heróis? E as consequências das ações?”, pergunta um padre cortinado de pacifismo.

Aos poucos, o casal perde a felicidade pela resistência de não aos soldados nazistas (presença sitiada e por intimidação – o contra deles é um “pecado político” de apenas “aceitar”). Há algo de “Dogville”, de Lars von Trier, no ar. E/ou de “A Resistência de Inga”, de Grímur Hákonarson. E/ou “Ventos da Liberdade”, de Ken Loach. Os traidores, “inimigos” da lei e da nova ordem, sofrem desesperos e humilhações, tornando-se pessoas non grata, entre próximos conflitos-elipses, por peitar “ideologias”. Lavagem cerebral? Alienação? Tudo inclusive com cenas “reais” de Adolf Hitler na vila.

“Uma Vida Oculta” avilta a consciência da prisão, metafórica e física, por “experts em levitação anti-cristo”, que proíbe o falar e supre a piedade. E assim, nós espectadores entramos em um novo portal temporal, praticamente um novo filme, quando a estética da câmera não mais “protege” o roteiro, que se descortina com fragilidade explícita, soando cliché, estereotipado e de violência teatralizada (truculência no campo de concentração), entre luto, perda e a própria câmera que subjetivamente “apanha” (transformando a personagem na câmera que na verdade somos nós – denotando uma inocência ao acreditar que outra roda está sendo inventada).

E não para por aí. Adentra-se em outra seara: a de questionar Deus com revoltadas perguntas retóricas e/ou cartas sentimentais procurando o sentido da vida. “Porque nos criou? Onde você está?”, continua-se o religioso à moda dos monólogos de “A Árvore da Vida”. Sim, nós já vimos esse filme. E também já experimentamos esta estética visual. Já nos surpreendemos com sua câmera que atravessa corpos e filma a alma humana, quase como espectro, quase de viagem interplanetária a novos universos ainda não descobertos.

“Uma Vida Oculta” pode ser mais do mesmo. Uma investida a uma recorrente linguagem cinematográfica. E assim, nós pensamos qual a verdadeira essência do cinema: a construção da imagem? A sinestesia transmitida? Transcender e transmutar emoções? Escolher um ou outro elemento focal porque é quase impossível conjugar maestrias? Pode ser tudo ou apenas mais um filme de um diretor que acredita em suas escolhas e as quer manter por mais tempo.

 

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