A Resistência de Inga

Uma andorinha que tentou fazer verão

Por Fabricio Duque

Certos filmes nos mostram que o cinema consegue transcender ainda mais sua própria existência. O exemplo da vez vem da Islândia. “A Resistência de Inga”, do diretor Grímur Hákonarson (de “A Ovelha Negra”, exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2015). Seu realizador, com nove filmes em sua carreira, divide-se ente ficções e documentários, e já cria uma tipicidade condutora de sua narrativa: pelo naturalismo comportamental das relações humanas. Aqui, nós somos convocados a participar de uma “revolução solitária”. De uma personagem, que insatisfeita com as regras impostas por uma Cooperativa rural, resolve brigar com “peixes grandes” a fim de buscar o equilíbrio de sua paz.

“A Resistência de Inga” envolve o público e o adentra na atmosfera bucólica de uma comunidade do interior, entre suas tarefas rurais e suas influências tecnológicas da modernidade, criando assim um constraste espontâneo e realista da própria vida, ainda que seja propositadamente uma ficção. É sinestésico porque nós sentimos as angústias e necessidades da protagonista (a atriz irretocável Arndís Hrönn Egilsdóttir), como se estivéssemos “abraçados” pela estética cinematográfica de Bela Tarr com estímulo narrativo do cinema dinamarquês. Aqui, um acontecimento gera uma ladeira abaixo de reviravoltas e consequências. E tudo por uma crônica-conto de viés político, quase utópico na crença de que uma “andorinha” pode “salvar” o mundo e seus “vendedores” do capitalismo, que é personificado no dono da Cooperativa. Que “protege” seu povo (os integrantes do vilarejo) com os preços atos. Uma troca justa?

O longa-metragem tenta fazer o que José Saramago construiu em seu livro “Ensaio sobre a Lucidez”. A de que uma comunidade pode se auto-sustentar sem a presença intimidante e ameaçadora de seus atores políticos, que encontra a força da luta individual que permeia as obras fílmicas do diretor britânico Ken Loach. Em “A Resistência de Inga”, Grímur Hákonarson corrobora sua verve artística de simplicidade sutil e despretensiosa, com total domínio da direção, parte técnica e interpretação, e, como já foi dito, é o cinema em sua essência mais básica.

Se em seu filme anterior “A Ovelha Negra”, a “guerra” era familiar, com picuinhas e ovelhas entre dois irmãos orgulhosos, aqui, a batalha é estendida e as conquistas em forma de “migalhas”. Mostra-se que uns foram feitos para seguir ordens e outros para questioná-las. A condescendência é doutrinada pelo medo das consequências impositivas: perder a família e ou não ter crédito para se alimentar, elementos mais básicos da sobrevivência de todo e qualquer ser, humano pensador e/ou animal subserviente.

“A Resistência de Inga” busca a liberdade das situações-acasos. E o papel do roteiro fornecer mecanismos críveis. Há uma cumplicidade entre todos. Uma perspicácia amadurecida. Um entendimento não sensível que aceita a existência das idiossincrasias do outro. Suas personagens vivem vulneráveis, mas com a sensação de amparo. Quase uma experiência Cuba de ser, com poucas opções de produtos, mas com um grande cuidado social.

Contudo aqui o “dono” mantém suas “ovelhinhas”, as intimidando com missões “X9” não éticas e morais, como a de impedir e boicotar pessoas que compram em lugares diferentes dos “permitidos”. É a traição em prol do individual para que não haja nenhuma perda pessoal. E quando nada mais é possível, uma decisão radical pode ser a solução. Só que não. Até porque problemas são repassados, recaindo sob os ombros de próximos.

E ainda quando tudo é perdido, a ida é sempre uma opção e a música de atmosfera feliz-realista-depressiva serve de trilha-sonora (com um que de Abba) para a aventura on the road ao desconhecido futuro. Nossa protagonista precisa lidar com a solidão, com o luto, com a luta para sobreviver com tantos preços exorbitantes (explorados pela Cooperativa) e não deixar a peteca da fazenda cair, ainda que o Condado a force a desistir e entregar os pontos.

“Sempre espero por dias mais felizes; não quero morrer tão triste; não posso deixar o tédio dar cabo de mim; ou me levar à completa loucura; segunda-feira é difícil; na terça-feira a bola começa a rolar; chegam quinta, sexta, sábado; estou prestes a me descontrolar; o fim de semana é hora de se divertir; fazer loucuras; se deixar levar; no domingo, sossegar; levar as coisas com calma; hora de viver minha vida; ser feliz e livre; agora é hora de sair deste lugar; tenho o mundo inteiro para ver”, finaliza-se com a música “Ég lifi í voninni” do grupo islandês Stjórnin.

 

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