Um Certo Cinema Brasileiro
Raízes do olhar
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra CineOP 2026; Cine PE 2026; Mostra de Tiradentes 2026
Fábio Rogério é um diretor que lê Cinema onde outros só enxergam imagens. Sua carreira é formada por uma série de títulos que ressignificam o que outros poderiam classificar como supérfluo; ele não enxerga nada assim. Todas as imagens que nos habitam, são Cinema; todas as vezes que realizamos ação filmada, é Cinema. Como disse Lincoln Péricles, é preciso respeitar as auto-declarações, e Rogério se coloca como provedor de olhar cinematográfico em tudo que filma e tudo que monta. Isso está na gênese de “Um Certo Cinema Brasileiro”, uma de suas obras mais curtas, e ainda assim absolutamente cinema.
Além disso, Rogério se apresenta aqui como um voraz garimpeiro de História; leiamos e entendamos essa História da maneira mais amplificada possível. Do que foi encontrado no youtube para exemplificar a experiência de cinema entre os espectadores mais diretos possíveis através de arquivos do CTAV (Centro Técnico Audiovisual, um órgão do Ministério da Cultura responsável por apoiar a produção de obras audiovisuais), o diretor se coloca a pensar. O que é Cinema? Valores atribuídos modificam a visão do que se dignifica chamar como tal? Qual o debate que pode surgir entre a classificação qualitativa da sociedade e o que um obra agrega de maneira independente? E, fazendo a curva, como Fábio Rogério, o autor, reproduz esses mesmos debates ao montar tais imagens e chamá-las de Cinema?
Estamos diante de imagens que entrecruzavam os lançamentos de “A Dama do Lotação” e “Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia” em abril de 1978, diante das breves entrevistas realizadas na porta do inúmeros cinemas onde as filas para ambos davam literais voltas no quarteirão. As perguntas feitas ao público comum tentavam entender os motivadores para que os filmes fossem os campeões de bilheteria que acabaram sendo, e as respostas são ao mesmo tempo chocantes e absolutamente sinceras. No mais, “Um Certo Cinema Brasileiro” carrega o centro dessa discussão a respeito dos tradicionais preconceitos relacionados ao cinema brasileiro, e é assustador que tais chavões já existissem no auge de um dos movimentos mais populares da nossa História: a pornochanchada.
O filme dá voz a esses espectadores de 78 e eles, com menos de 10 anos do marco inicial do movimento, já expressavam com naturalidade sua incompreensão para essa fatia importante da filmografia. Não dá para negar que Rogério conseguiu encontrar momentos (e personagens) muito engraçados, que fazem “Um Certo Cinema Brasileiro” crescer, como a mulher que “odeia cinema brasileiro, mas já estava assistindo ao mesmo pela segunda vez”. É um festival de contradições tão comuns a um espectador que não se sente representado pelo que assiste, e ao mesmo tempo estranhamente atraído pelas mesmas obras. É a tradicional resposta ao desconhecido, que não se pretende uma melhor leitura, mas ao mesmo tempo mostra um fascínio inequívoco.
Enquanto criador de imagens que desafiam os padrões estéticos e um conceito de bom gosto antiquado, Rogério traduz um Brasil que não está em grande parte do que filma. Seu cinema tem a ver com algum desejo de ser e estar, de contemplar uma ideia de pertencimento que una tais planos com a própria existências dos tipos que filma. E que exista uma conquista por parte de seus filmados, para que eles consigam ressignificar as imagens e seus lugares no mundo a partir delas. Em “Um Certo Cinema Brasileiro”, Rogério não entrega essa tarefa a quem é filmado, mas sim parte de se encarregar de organizar corpos e vozes pré-existentes ao seu discurso, ou reimaginar esse lugar a partir de um movimento que já está exposto.
Aqui, Rogério volta a se conectar a anônimos – apesar da participação de Stela Freitas, retirada de “Anatomia do Espectador”, de Ana Carolina – como um oxigênio para seu olhar investigativo. Após suas muitas conexões com críticos de cinema (Marcelo Ikeda, Jean-Claude Bernadet e Wesley Pereira de Castro), Rogério chega nos arquivos para reinterpretar as molas de seu cinema: os corpos que vemos, em seu reflexo mais comum, precisa olhar para si e para o Cinema. Com um trabalho fino de resgate de material, o autor nos introduz a sociedade de 50 anos atrás já sugerindo o futuro, e o círculo parece nunca ter fim.




