Tião Personal Dancer

A política do desejo 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026; o Festival de Cinema de Vitória 2026

Tião Personal Dancer

É a juventude a quem o cinema joga suas lentes. É para eles que os filmes são feitos, e na maior parte dos casos, são eles que realizam as obras. Na seara do curta metragem isso é ainda mais evidente; existe uma grande proporção de cineastas jovens que produzem filmes, de faixa etária cada vez mais reduzida. Aritótelis Tothi é jovem, e já tem outros trabalhos na carreira, incluindo um longa (“Vasta Natureza da Minha Mãe”), e com “Tião Personal Dancer” ele faz uma curva acentuada. Quando poucos estão retratando o cotidiano de pessoas LGBTQIAPN+ não-jovens, seus conflitos e suas particularidades, ele foi lá e desenvolveu esse roteiro ao lado de Bruno Victor olhando justamente para esses personagens.

Reginaldo e sua amiga Cida são frequentadores de clubes de dança de salão onde Tião é um dos profissionais que recebem para performar com seus clientes. O encontro entre ele e Reginaldo é a base de “Tião Personal Dancer”, que ambientado quase inteiramente nesses clubes, é uma saída para para narrativas convencionais envolvendo personagens queer. Na faixa etária, no cenário, na adequação desse espaço-tempo às realidades da comunidade gay, uma subversão é construída ali e o filme passa de um cenário cômico para um erótico e termina em um quadro possivelmente romântico que contraria muitas das opções que o cinema de quadro queer ambiciona.

O trabalho de Tothi, porém, é complexo e vai além desse roteiro que conecta muitas possíveis releituras não convencionais. Sua luz é sempre estourada e clara enquanto o filme não mostra o encontro entre os protagonistas, como se pudesse revelar os segredos (ou não-ditos) de seus tipos. Quando eles, enfim, estão juntos, o que vemos são cores fortes que extrapolam a realidade, para exemplificar em quais temperaturas estão sendo gestadas aquelas relações. Para o encaminhar de seu desfecho mostrar a criação de um termômetro de beleza e suavidade, já que estamos diante de uma pureza idealizada, um delírio assumido e performático. É um arco completo sendo fechado para contar o nascimento de uma história, cuja continuidade não nos será revelada.

Além disso, “Tião Personal Dancer” ainda é uma narrativa protagonizada por dois homens negros acima dos 50 anos em uma história de ideal romântico. Com todos os “Moonlight” lançados anualmente pela indústria, o que Tothi move aqui é, até que se prove o contrário, inédito. É o afeto promovido entre pessoas que, segundo os dados, estão na parcela de pessoas que não chegariam vivas aos 60, e aqui eles não estão apenas vivos, como querendo extrapolar sua existência, indo além do que o audiovisual retrata. É um campo ousado de acordo com a falta de reflexo dessa imagens em quaisquer outras mostradas acercas dessas figuras, que amam, se decepcionam, buscam um futuro contra toda a hipocrisia e desânimo (palavra utilizada em uma bonita cena), para realçar suas trajetórias.

As presenças de Adolfo Moura e Otto Caetano impressionam pelo ímpeto de suas entregas, que não podem ser resumidas apenas como corajosas – embora o cinema venha abaixo em seu clímax, pelo que protagonizam. São corpos sem hegemonia, que não vemos representados na posição que Tothi especifica – estão na idade errada e na cor errada, de acordo com a sociedade. Por isso o plano final de “Tião Personal Dancer” vai além da beleza, da celebração ou da realização da vontade de seus personagens: o que vemos é histórico. Assistir esse plano ao lado de uma multidão entusiasmada é nunca menos que arrepiante, a sessão do Festival de Vitória não foi apenas bonita, mas sim o palco para onde seu diretor promoveu tal catarse.

E acompanhar dois homens de meia idade, de beleza negra quase retinta, em plena consciência de suas dores e ausências, se deixar levar pela volúpia explícita, é político. Se o plano final de “Tião Personal Dancer” não representa a chegada do novo, se a luz de Sildênia Santos não alicerça esses homens a um patamar invejável, se sua entrega não é um acontecimento, então eu não entendo mais nada do ser humano, ou de política, ou de consciência de classe. Ou de Cinema.

5Nota do Crítico51

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