Somos os Que Tiveram Sorte

O acaso, a história

Por João Lanari Bo

Somos os Que Tiveram Sorte

A ideia de que a história é feita de acasos encontra eco em grandes reviravoltas que mudaram o destino da humanidade por puro detalhe, sorte ou azar. Enquanto alguns pensadores defendem que existem forças estruturais invisíveis (como a economia, a geografia e a luta de classes) que moldam o futuro, é impossível ignorar o “fator humano” e o imponderável.

Na perspectiva de uma família judia durante a Segunda Guerra Mundial, o acaso não era apenas um conceito filosófico; ele era, literalmente, a fronteira imediata entre a vida e a morte. Enquanto o regime nazista operava com uma burocracia industrial e milimetricamente planejada para o extermínio, a sobrevivência dos indivíduos muitas vezes dependia de batidas de portas, mudanças climáticas ou caprichos – muitas vezes movidos por pura corrupção – de um guarda.

Somos os Que Tiveram Sorte”, a série em oito episódios da Hulu/Disney, comprova, com louvor, a tese da relevância do acaso no curso da história dos destinos humanos – desta vez agrupados em torno de uma família judia na Polônia, a família Kurc, impactados e dispersados pela violência alucinada do regime hitlerista. Baseada no bestseller homônimo de Georgia Hunter, relata com detalhes as incontáveis agruras – reais – de como uma família sobreviveu e acabou separada durante o Holocausto, tudo isso ressaltado pelo próprio título. Tiveram sorte, muita, mas também foram tenazes e resilientes.

Muitos também o foram, e não sobreviveram. O Holocausto, que alguns aloprados insistem em negar, não foi apenas o extermínio industrializado dos campos de concentração, que aniquilou cerca de 6 milhões de judeus. Foram também os incontáveis atos de terrorismo em praticamente todos os territórios ocupados pelos alemães, muitos deles resultando em mortes. A imagem algo estereotipada do oficial nazista sádico e arbitrário, por mais que tenha sido construída por Hollywood, guarda, entretanto, sólidas ramificações no real.

Somos os Que Tiveram Sorte” começa em Radom, uma cidade de porte médio na Polônia, antes da guerra, apresentando a família Kurc. Abastados comerciantes no ramo da tecelagem de luxo, são muito unidos – na sequência inicial, uma celebração do Pessach (ou Páscoa Judaica), vozes se sobrepõem a risadas, num clima de congraçamento afetivo que parece ignorar, ou fingir que ignora, a ameaça nazista no horizonte. O Pessach é uma celebração tradicional que relembra a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito há cerca de 3.500 anos.

Sol (Lior Ashkenazi), o chefe da família, é um sujeito afável e cordato, seguro na estabilidade burguesa que granjeou. Ladeado pela mulher, Nechuma (Robin Weigert), está determinado, como muitos, a não arredar pé de sua cidade. Mas muitos judeus, a essa altura, já tinham escapado, sobretudo os que residiam na Alemanha – e a Polônia era, com muita probabilidade, o primeiro alvo de Hitler. Claro, é fácil criticar a vacilação de Sol com a distância histórica – esse é um longo debate. Certamente o status social que dispunha inibia rupturas radicais, como mudar-se com a família para outro país. Era difícil acreditar que uma irracionalidade como a que veio a ocorrer pudesse acontecer.

Mas quem ficou, ou foi aniquilado em algum momento, ou emigrou ao final da guerra: dos 30 mil judeus que outrora haviam habitado a cidade, sobraram menos de 300 pessoas. Na Polônia, estima-se que 90% dos judeus não tenham sobrevivido à guerra, ou seja, aproximadamente 3 milhões de judeus poloneses foram assassinados entre 1939 e 1945. São números assombrosos.

Georgia Hunter fez um extenso trabalho de pesquisa para escrever o livro, registrando depoimentos orais de membros da família espalhados pelo mundo, inclusive Brasil. Mais do que a guerra em si – são poucas as cenas com soldados nazistas – a narrativa foca em como era a vida de uma família judaica polonesa durante o conflito. Uma narrativa que se fragmentou irremediavelmente, como a de muitas famílias, mas, por uma sequência de golpes fortuitos, conseguiu atravessar essa verdadeira odisseia. Os irmãos Halina (Joey King), Addy (Logan Lerman), Genek (Henry Lloyd-Hughes), Jakob (Amit Rahav) e Mila (Hadas Yaron) foram levados pelas circunstâncias aos mais variados destinos, dos guetos na Polônia à batalha de Montecasino, da Sibéria ao Rio de Janeiro – na maior parte do tempo incomunicáveis entre si, sem saber se estavam vivos ou não.

Uma saga, portanto, com um páthos em alta voltagem. O Brasil, em “Somos os Que Tiveram Sorte”, acabou representando o porto seguro para a família Kurc. São feitas várias menções negativas a Getúlio Vargas por sua simpatia inicial pró-Alemanha, e referências positivas ao Embaixador Souza Dantas – que aparece na série.Ele ficou mundialmente conhecido por desobedecer às ordens do governo de Vargas, que restringia a entrada de judeus, e emitir centenas de vistos para salvar perseguidos pelo regime nazista.

A série ganha inevitáveis camadas complexas de interpretação quando assistida sob o impacto do antissemitismo contemporâneo e dos avassaladores bombardeios israelenses na Faixa de Gaza, na sequência do ataque do Hamas, em 7 de outubro de 2023. A desumanização do “outro”, levada às últimas consequências no Holocausto, volta a afetar, pesadamente, populações civis.

4Nota do Crítico51

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