Salve, Rainha!

Existir e resistir 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o Festival de Cinema de Vitória 2026

Salve, Rainha!

Experiências catárticas também podem gerar bons filmes, alguns até ótimos. E se a força da catarse fosse mais do que gatilho, como também sustentáculo? “Salve, Rainha!” está no Festival de Vitória, dentro da mostra local,  para observar como tais sessões também podem revelar surpresas de diferentes recepções, para o bem e para o mal. No caso aqui, encontramos uma história bem desenvolvida e atuada com capricho, para um crescendo melodramático que explode em uma roda de congo em seu clímax. Trata-se de uma produção com um olhar próprio a uma prática, que na ânsia de torná-la visível, criou uma ponte bem sucedida para tal discurso.

A interação entre Valéria Barcellos e Suely Bispo dão a tônica da produção, que se estabelece de maneira fluida, como deve ser. Os diretores Estevão Ribeiro e Fábio Carvalho entendem as nuances das duas personagens tão bem quanto as atrizes, e conduzem uma situação com uma delicadeza que não estamos acostumados no cinema brasileiro. Leia-se: é tradicional (mas não deveria ser natural) que relações de amizade e até fraternidade sejam apontadas por direção, roteiro e muitas vezes lidas assim por seus intérpretes de maneira caricata de tão aguda. “Salve, Rainha!” nos apresenta a algo que não esbarra no exagero da superinterpretação, porque suas personagens não precisam do mesmo.

A partir da relação entre Madalena e sua irmã em narrativa tradicional, o filme busca uma comunicação com o olhar capixaba. “Salve, Rainha!” se recusa, por exemplo, a reforçar os estereótipos da ilha, que conduz seus naturais para uma vida longe do lugar de origem, ao propor sua volta. Nesse sentido, o campo do filho pródigo, no projeto, é aproveitado para propor uma reflexão com a própria relação da cidade com quem nasceu no Espírito Santo. Se a partida é natural, o filme tenta estabelecer esse olhar para quem escolhe voltar e mais que isso, reafirmar raízes. Por isso o papel do congado não é somente cultural, mas o de construção direta com a narrativa que o filme propõe.

“Salve, Rainha!’ é, ao contrário do que possa parecer e mostrar, uma produção ainda mais especial, nesse aspecto. Porque naturaliza o que facilmente é descrito de maneira territorialista, e transcende suas cores com as possibilidades de uma narrativa queer ser sim entrincheirada à tradição. É então estabelecido esse novo olhar, de quebra de expectativa diante de um quadro que se imaginaria de menor facilidade. Como as melhores surpresas costumam ser, o roteiro de Ribeiro nos prepara para uma zona de conflito esperada, que inclusive é alicerçada em algum detalhe, mas é uma opção saudável que o filme saia pela tangente na hora H. Isso promove uma oxigenação dentro do clichê, tornando o filme mais humano.

Da beleza que se extrai a doçura tranquila dessas relações, as performances seguras de Barcellos e Bispo mapeiam mais do que um reencontro entre irmãs. Está entre elas a aceitação de que a chegada do novo não promove a extinção do que já é histórico; História e modernidade entrelaçadas não diminuem os traços culturais de qualquer manifestação. A chegada na roda de congado ainda mostra a participação de uma figura ainda mais sensível ao que está em questão, como uma bênção ao que está por vir. É um encontro onde ganham todos, passado e futuro igualmente representados na ascensão do que está por vir, e que já precisa de toda empatia. “Salve, Rainha!” pede por isso, que os dois lados de uma mesma moeda estejam em consonância em busca de compreensão; existir e resistir, em todos os lados.

3Nota do Crítico51