Retrato de uma Jovem em Chamas

Artes Sem Limites

Por Jorge Cruz

O cinema não comporta mais uma realidade em que diretoras como Céline Sciamma (de uma das obras mais fundamentais da década, “Tomboy”) não se façam presentes nas grandes manchetes, ocupando espaços que não lhe eram permitidos. Em “Retrato de uma Jovem em Chamas“, a despeito de questões a serem trabalhadas, o espectador consegue, genuinamente, enxergar o que de melhor a arte audiovisual pode oferecer. Ao contrário da maneira quase automatizada com a qual alguns dos grandes expoentes do setor se valeram para lançarem suas obras nos últimos anos, o longa-metragem francês causa deslumbramento a partir do bom trato com os elementos e as ferramentas fundamentais para sua constituição.

O uso do figurino que transita entre marrom, verde e azul lembra um pouco outra grande estreia do período, o russo Um Mulher Alta. Todavia, se ali toda a construção de cenários, alinhando aquele à fotografia e a direção de arte é única, comungatória, na obra de Sciamma a força visual se limita àquele elemento. Nesse ponto, o desenvolvimento se dá tanto textual quanto imageticamente. O primeiro acontece na inesquecível cena que nos apresenta Héloïse (Adèle Haenel, que pagou seus pecados em outro filme lançado recentemente no Brasil, “A Revolução de Paris”). Ela se desloca rapidamente em direção a um penhasco e, de forma prazerosa, diz a Marianne (Noémie Merlant) o prazer que está sentido por correr. Ali as várias prisões femininas no final do século XVIII (ou de todas as épocas?) começam a se revelar: do casamento que gera indiferença ao vestido que limita a plenitude de seus movimentos.

O que envolve todas as personagens em suas roupas pesadas, ao contrário da outra produção citada, é um quase contraste. Sciamma explora de todas as maneiras a linda paisagem da ilha localizada na Bretanha, norte da França. Enquanto o longa-metragem sobre as mulheres que lutaram na Segunda Guerra Mundial é um prosa poética, “Retrato de uma Jovem em Chamas” é poesia pura. Nessa primeira parte, todo o lambuzamento na pomposidade estética e riqueza visual não permite ao filme encontrar sua força ou sua carga dramática. Somos colocados como mero observadores em um caminho trilhado de forma propositalmente lenta.

Dessa maneira, o filme entrega uma dose cavalar de combustível para aqueles que acham que cinema não é só comida e diversão. Traça em seu ritmo o paralelo do processo criativo de Marianne, uma artista talentosa que – desafiada a criar um retrato em pintura sem que a modelo soubesse – precisa contar com uma captação de aura de sua obra bem mais fragmentada do que o tradicional. A diretora nos insere nessa trama com a mesma penetração claudicante com a qual as protagonistas interagem. Uma descoberta sensorial quadrangular: Héloïse, Marianne, Sciamma e o espectador.

Há o afastamento de atributos ansiados em um produto cinematográfico, como se o foco em determinadas questões fizesse parecer que “Retrato de uma Jovem em Chamas” fosse, de certa maneira incompleto. Todavia, trata-se de uma obra que tem a certeza de sua incompletude, mas que é merecidamente celebrada por ser exatamente assim. Um filme que esgota sua premissa em favor do deleite visual, a despeito da ausência de exploração da narrativa.

O segundo ato do filme, obviamente unindo as duas pontas, prima pela irretocabilidade. São os momentos em que não apenas a história, como as personagens e sensações são expostas de maneira aguda. Héloïse se sentindo traída pela exploração de sua imagem e Marianne se sentindo culpada tal qual um agente infiltrado que desenvolve afeto por quem engana. Como se a autonomia proibida à personagem de Haenel se tornasse mais dura ao testemunhar uma nova pressão, exercida por uma quase-confidente que, além de tudo, sabe o que é ser uma mulher. Já a maternidade é inserida de maneira bem mais performática do que alegórica, trazendo a dúvida acerca de, se aquele aspecto em especial (apesar de pertinente), era necessário – uma vez que seria trabalhado tão superficialmente.

Após esse pico de originalidade e carga narrativa, que amplifica as interpretações modernas das atrizes, o filme parece se reencontrar com o século XVIII. Seu auge, com a união das lindas imagens, pensadas como pinturas e os diálogos poderosos se transformam em uma obra claudicante, como se no terceiro ato fosse trocada a trajetória de uma história crescente para uma modorra injustificável. Sciamma introduzir os diversos aspectos sem pressa no início do arco não guarda qualquer relação com a preguiça do andamento no trecho final, criando uma ligeira irregularidade em “Retrato de uma Jovem em Chamas“. Muito pouco para não considerar o filme um dos grandes destaques de 2019, mas o suficiente para questionar a efusividade e inquestionabilidade de sua recepção.

 

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