Uma Mulher Alta

Desejo, Necessidade, Vontade

Por Jorge Cruz

Durante o Festival do Rio de 2019

A complexidade de “Uma Mulher Alta” se dá desde a tradução de seu título em português. Na literalidade do nome original, Dylda, é o que no português chamamos de latagona. Ou não chamamos, eis que essa é uma palavra ignorada em nosso cotidiano. Esse substantivo se refere a uma mulher nova, robusta e de grande estatura. Isso explica o apelido de Iya (Viktoria Miroshnichenko) e já dá o tom das inúmeras camadas dessa magnífica obra que representa a Rússia na lista de pré-indicados de melhor filme estrangeiro no Oscar de 2020.

A Guerra não tem Rosto de Mulher“, de Svetlana Aleksiévitch (vencedora do Nobel de Literatura de 2015), foi seu primeiro livro a utilizar o estilo de recolhimento de testemunhos de soviéticos em um importante mosaico para entender a Rússia e seus territórios vizinhos a partir da revisitação do período do regime comunista. O grande brilhantismo dessa obra, transportada com eficiência para a versão cinematográfica, é trazer o ponto de vista feminino a um fenômeno social atrelado equivocadamente aos homens. A câmera de Kantemir Balagov contribui para a angústia do espectador quando a primeira crise de estresse pós-traumático da protagonista ganha forma, logo nos primeiros momentos do filme. Tão acostumados a assistir obras de períodos pós-guerra com tais marcas em homens, é possível que cause estranhamento do público ver uma mulher em tal situação. Hollywood, por exemplo, levou ao extremo ao lançar “Os Melhores Anos de Nossas Vidas“, obra de William Wyler a princípio ficcional, porém estrelada por ex-soldados revisitando seus próprios dramas. O filme venceu o Oscar de melhor filme em 1947, na esteira do fim da Segunda Guerra Mundial. Como se toda a equipe feminina nas zonas de combate não tivesse sequelas parecidas, mais de setenta anos após o fim do conflito uma trama parecida ganha forma.

Em outros momentos, bem curtos e portanto dissonantes do restante do longa-metragem, Balagov opta pela mesma câmera-personagem que nos imprensa à protagonista, gerando o incômodo semelhante ao de “Filho de Saul (2015). Os caminhos trágicos e angustiantes dessa obra se desenvolvem a toque de caixa, com um forte apelo imagético baseado em três cores: o verde, o marrom e o vermelho, todos em tonalidades envelhecidas. Por isso a dimensão que o longa-metragem ganha em uma sala de cinema faz com que ele seja muito mais hipnótico e sedutor que o normalmente observado. Seria exagero dizer que “Uma Mulher Alta” não possui seus defeitos, sendo o principal sua indecisão rítmica. Há alguns prolongamentos bem imersivos contrastando com sequências muito mais dinâmicas. Esse jogo de morde e assopra na direção de Kantemir Balagov e na montagem de Igor Litoninskiy não é um defeito in re ipsa (oriundo do próprio fato), já que esse entendimento soaria uma tentativa de condicionar a estética de uma obra. Todavia, não foi identificada uma lógica de abordagem e escolha. Para mencionar um exemplo que faz o caminho contrário, o brasileiro “Temporada” se apresenta como filme fundamental para trabalhar o ritmo de um filme.

Ocorre que essa dinâmica das cores que abrilhantam a fotografia de Kseniya Sereda não pode passar incólume. Não seria surpresa, aliás, se acontecesse com ela o mesmo que aconteceu com Lukasz Zal ano passado por Guerra Fria“: uma indicação ao Oscar na categoria. Se pensarmos que Sereda é mais uma representante da jovem equipe de produção (ela completou em agosto 25 anos), é provável que ela seja a mais nova a ser indicada nesse quesito. A união de fotografia, direção de arte e figurino em torno das três cores já citadas é o grande atrativo de “Uma Mulher Alta“. Enquanto a protagonista se pauta nos tons de verde mais foscos, sua amiga insiste em não aceitar que o mundo precisa ser só tristeza e manifesta essa resistência a partir do vermelho. Nas paredes e mobílias, as duas cores se fazem presentem, mas a predominância é do marrom como cor de carne.

Fica o registro de passagens onde essas paredes desgastadas, em tonalidade de vísceras, lembram muito a coleção Línguas e Cortes da artista plástica brasileira Adriana Varejão. Quase como se aquelas duas mulheres, tão condenadas quanto todas as outras às paredes fechadas de suas casas, de certa forma se unissem biologicamente àquele território. Nessa brincadeira de transição de cores, Masha pode oferecer seu casaco vermelho a Iya como quem pede para a outra se animar sem usar palavras para isso. Em um ambiente onde conviver com a morte não é uma opção, a introspecção de uma serve como peso de balança para o ímpeto da outra. Com essas abordagens, o roteiro não apenas desfila o protagonismo feminino, como aprofunda as necessidades daquelas personagens. À exceção desse dinamismo de montagem descontextualizado, quando Balagov permite a fruição das imagens, sempre em ambientes internos, na formulação de uma antologia de tragédias, “Uma Mulher Alta” é deslumbrante ao mesmo tempo em que deprime. Aqui se encontra outro elemento que o Brasil conhece bem. Ao propor a maternidade como fio condutor da história o espectador não deixará de se referenciar às populares telenovelas, produto que também gosta da tragédia como elemento.

O momento histórico onde se passa o filme é logo após os quase mil dias do cerco a Leningrado, um período de profundo sofrimento da população da hoje chamada São Petersburgo. Quando as sequências ganham as ruas e a a interação social é maior, o branco e o cinza tomam aos poucos o espaço do vermelho e verde e perdermos esse elemento que tiraria o foco da tragédia externa, aquela vivida pelas vítimas residentes no hospital de guerra e que vagam pelas ruas em desespero desalento. Só que o segundo ato, em certos momentos muito focados nessas outras interações, não possui a mesma carga dramática e arroubo narrativo que o antecede. Todavia, “Uma Mulher Alta” resgata esse estupor na parte final, quando se transforma em um jogo de resistências e pequenas desistências, desde as materializadas até as simbólicas – sendo a mais marcante quando Masha encomenda para si um vestido verde brilhoso. Em mais uma sociedade que naturaliza o sexo como moeda de troca, mesmo as mulheres cientes de suas necessidades caem em armadilhas por elas mesmas idealizadas a partir das reproduções paralisantes. Só que essa produção russa leva a sério sua mensagem de que a busca pela felicidade não deve encontrar na lógica um obstáculo, se tornando um poderoso filme a ser imediatamente consumido.

 

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