A Revolução em Paris

Sem Evolução

Por Jorge Cruz

A Revolução Francesa como evento histórico é apaixonante por muitos motivos, o que torna “A Revolução em Paris” um potencial filme marcante em sua origem. Reúne um elenco francês no auge de sua forma, como Gaspard Ulliel, Adèle Haenel e Louis Garrel e faz um recorte que se inicia com a Queda da Bastilha em 14 de julho de 1789 e termina com a Execução do Rei Luís XVI em 21 de janeiro de 1793. Ou seja, um período de efervescência política com foco nos debates sobre o sistema político francês em um esboço democrático. Essas materializações no roteiro de Pierre Schoeller (que também dirige o longa-metragem) enchem os olhos de qualquer jurista e amante da História.

Talvez por isso as questões técnicas da obra não tenham comprometido tanto a experiência de assistir “A Revolução de Paris” durante o Festival Varillux de Cinema Francês 2019, ainda em junho. Saciado o desejo de ver a reconstituição das primeiras sessões do primeiro Parlamento que deu voz aos ideias de liberdade, igualdade e fraternidade, o reencontro com o filme seis meses depois ampliou de tal maneira as problemáticas questões técnicas do longa-metragem que atingiram em cheio até mesma a percepção acerca da abordagem histórica. No mais gritante ponto estrutural a ser destacado a incômoda montagem de Laurence Briaud. Tudo leva a crer que o editor se viu às voltas com um material bruto volumoso e descontinuado, já que apenas isso justificaria um profissional que obteve destaque em seu trabalho imediatamente anterior (Os Fantasmas de Ismael) ter entregado um produto com esse acabamento.

Briaud é o montador de confiança do diretor Arnaud Desplechin, uma parceria de quase trinta anos, englobando toda a filmografia do cineasta. Já Schoeller está apenas em seu terceiro lançamento para os cinemas na função de direção. Porém, não podemos creditar a ele os problemas estruturais de “A Revolução em Paris“. Sua opção por enquadramentos fechados, sempre próximo dos personagens – uma estética novelesca – transita entre sua escolha e a tentativa de encobrir uma direção de arte modesta. Mesmo com orçamento de 16 milhões de euros (o que não é pouca coisa), não há uma composição de mise-en-scène a altura de um projeto dessa magnitude. As inserções de efeitos visuais e artificialidade da luz por vezes faz lembrar as já citadas telenovelas (mais precisamente aquelas bíblicas, que colocam quase toda a verba no gasto com figurino).

Todos esses incômodos técnicos intensificam a ineficiência das interpretações teatralizadas. A necessidade de desenvolvimento de romance deixa eu segundo plano as questões sobre a formação do Estado burguês que serviria de modelo para o capitalismo a partir do século XIX. Por sinal, o roteiro de Pierre Schoeller ainda insiste em nos apresentar uma perspectiva feminina necessariamente idealizada, contudo sem assumir protagonismos. Nos sentimos por vezes no meio de um amontoado de personagens que nunca parecem compreender o que está acontecendo ali. A câmera sempre consegue uma desculpa para nos colocar diante de Françoise, personagem de Haenel. Ela transita pelos cenários como se fosse uma Forrest Gump da Revolução Francesa, mas em nenhum momento a obra faz justiça à protagonista. Por fim, acaba trazendo muitos elementos de objetificação, além de não deixar de deixar para ela as vezes de donzela – mesmo que no primeiro ato ela verbalize sua busca pela extensão do exercício da cidadania às mulheres.

Ignorando o próprio Luís XVI (Laurent Laffite) por boa parte do tempo de projeção, é até surpreendente que o clímax da obra dependa dele. O que parecia ser uma reconstrução dos passos que fundariam uma ideologia ainda muito presente no mundo, com o peso de um astro como Louis Garrel dando vida a Robespierre, se transforma em um conjunto de cenas-discursos sobre a necessidade da transição da monarquia para o parlamentarismo e debates preguiçosos sobre os avanços possíveis após a tomada do poder pela nova elite.

Esse desleixo com o produto final, como se uma dose de criatividade no desenvolvimento roteiro e na execução das cenas não fossem importantes dada a história que se estava contando, torna a experiência de assistir “A Revolução em Paris” um pouco frustrante. São três tramas paralelas (Françoise, Robespierre e Luís XVI) que sequer tentam se cruzar, porém sem uma hierarquia ou igualdade que elucide ao espectador o que, de fato, o filme quer contar.

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