Encontros

O Amor como Algo Preterido

Por Jorge Cruz

O roteiro de “Encontros” parece reforçar a ideia de que o cinema europeu atual tenta ocupar um vácuo de Hollywood, uma vez que essa indústria parou de investir e dar atenção às comédias românticas. Cooptando a abordagem, talentosos cineastas tentam reconstruir o gênero à sua maneira, como já o fazia em épocas onde o romance andava mais em voga no mercado. Assim como observado em “Um Amor Impossível” o roteiro desta obra francesa parece mais um não-romance ou, para criar um termo mais apetitoso para os jovens cinéfilos, sedentos por acreditar que assistem a profundas transformações da arte, um exemplar de pós-romance – termo cunhado com muita dor no coração.

A filmografia do diretor Cédric Klapisch sempre pautou por uma forma de abordagem conectada com seu tempo, incluindo aquela que talvez seja sua obra mais famosa, “Albergue Espanhol”, de 2002. Os créditos do roteiro são divididos entre ele e o argentino Santiago Amigorena. O longa-metragem nos conta a história de Mélaine e Rémy de maneira paralela. Enquanto ela procura ajuda médica por sentir sono o dia inteiro, mesmo após dormir 14 horas por noite, ele se preocupa com a insônia. Usando como desculpa um desmaio que teve no metrô, Rémy (François Civil, visto esse ano na edição brasileira do Festival Varillux em exemplar mais adocicado de atualização de gênero, “Amor à Segunda Vista”) é informado de que passou por uma crise de ansiedade, potencializada pelos problemas enfrentados em seu emprego. Já Mélaine (Ana Girardot, que já trabalhou com Klapisch em “O Que nos Liga”, de 2017) é diagnosticada com Síndrome de Burnout. A partir daí “Encontros” se transforma em uma trama onde se utiliza de elementos tradicionais do cinema para elencar importantes questões de nossa sociedade que necessitam ser debatidas, denotando um embasamento bastante criativo de ambientação. 

A mais fundamental dessas questões, até por parecer ser a causa do problema dos dois protagonistas, é a precarização do emprego. Mélaine é uma bióloga que corre o risco de perder sua verba de pesquisa caso não apresente resultados o mais rápido possível. Essa pressão por tempo e eficiência se assemelha àquela sofrida por Rémy. O caso dele é um pouco diferente, no entanto. Trabalhador assalariado, ele vê sua função desempenhada na empresa ser totalmente automatizada, levando todos os seus colegas à fila do desemprego. Por ser jovem e criando acidentalmente um bom relacionamento com o setor de RH, seu caso em particular é tratado com certa boa vontade. Em uma das cenas cômicas do primeiro ato de “Encontros” ele acaba deslocado para o setor de telemarketing da empresa.

A grande brincadeira da obra é nos mostrar pessoas que estão próximas e não conseguem se encontrar pela total afogamento em seus problemas adstritos à rotina de uma cidade complexa como Paris. Não há nada de novo nessa abordagem, mas a atualização da ambientação e da narrativa é muito bem construída. Movidos pelo estresse, Rémy e Mélaine vivem o conto de fadas mais contemporâneo possível, aquele que não acontece, já que o amor parece em suspensão ante a todas as pendências da vida moderna. Quando os protagonistas passam a receber tratamento psicológico novas propostas de discussão são colocadas a mesa. Ela se expõe um pouco mais e recebe em troca um tratamento mais simplista, com o auxílio das amigas que a inserem em redes sociais de relacionamento. Quase como reputando à solidão a causa dos seus problemas. Mélaine é uma personagem construída a partir da quebra de expectativa daqueles que gostam de relacionar pessoas bem sucedidas profissionalmente com felicidade, como se elas não pudessem sofrer os problemas causados pelo próprio trabalho.  

Ao passo em que, Rémy é menos aberto no seu trato com a doença, vivendo conscientemente em uma bolha. Essa palavra, por sinal, parece estar bastante em voga também na França. Trata-se de mais uma qualidade do roteiro de “Encontros”, obra que ao mesmo tempo nos permite um intercâmbio cultural sem deixar de criar certa identificação com o próprio cotidiano, eis que universalista. Os momentos de comédia, por óbvio, são situacionais e ancoram sua eficiência na certeza quase absoluta de que boa parte de seus espectadores já viveu uma daquelas cenas, ao lado de colegas de trabalho, familiares e amigos. Como não se divertir quando Rémy encontra um amigo de escola que se mostra uma pessoa com a qual ele não possui nenhuma identificação na vida adulta? É provável que o filme cumpra a única função de entreter, mas isso não afasta a ideia de que todas essas representações ali inseridas estejam, de certa forma, deixando recados ao espectador.

De maneira bem respeitosa, “Encontros” não incute apenas à solidão as causas dos males modernos. Em seus lampejos mais artísticos traz cenas metaforicamente brilhantes como quando Rémy conta para os parentes sobre sua suspeita de depressão e é mal interpretado. Ato contínuo, a sequência seguinte apresenta uma caminhada em família pelo terreno da casa de seus pais no interior. O protagonista propõe, então, uma mudança de rota já que eles sempre fazem a mesma todos os anos. O resultado é que ele é novamente criticado pela família, como se a tentativa de traçar um caminho diferente fosse condenável para eles, o que faz todo o sentido filosófico à luz do que foi trazido na cena imediatamente anterior. Uma sociedade que se afasta da possibilidade de reinvenções, insistindo em continuar fazendo as coisas da maneira que sempre fez, fingindo que não vê o quanto o panorama se modificou.

A riqueza de elementos do cotidiano da classe média transita entre a busca por comida orgânica ao uso de pets como tentativa de ter uma companhia em casa. Claro que o fato de estarmos diante de uma história de dois, à primeira vista, héteros brancos de classe média traz uma limitação aos problemas por eles enfrentados. A sociedade é muito mais complexa e cruel do  que aquela mostrada em “Encontros”. Mas isso não desautoriza sua história, por ser brilhante em seu intento de deixar o amor aonde ele realmente se encontra na atualidade: em segundo plano. Dessa maneira, há uma promoção de expectativa que deixa o espectador em um estágio de atenção. Naquela mesma máxima  jotaquestiana de que o amor pode estar do seu lado, é curioso ver como a simples interação com a comunidade em que vivemos pode nos aproximar de pessoas bem similares a nós.

 

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