Rambo: Até o Fim

Fim da Picada

Por Jorge Cruz

A segunda tentativa de Sylvester Stallone de ressuscitar a franquia iniciada com “Rambo – Programado para Matar” consegue ser muito mais trágica do que a feita em 2008. “Rambo: Até o Fim” alia alguns dos grandes equívocos dos filmes do gênero com o grande pecado de uma trama de personagem pré-existente: é um filme caricato e incoerente.

Uma maratona de filmes da franquia nos relembrou a mudança estética empenhada em “Rambo IV”. Sai a forma de se apresentar uma fita de ação dos anos 1980, com a emoção baseada em pequenas sequências emocionantes, para uma ambientação a partir de um ato preparatório para o clímax, escalando a ultraviolência que não foi vista na trilogia original. Além disso, para que a representação de um John Rambo mais estrategista e menos idiotizado fizesse sentido, foi preciso boa vontade. Como estávamos vinte anos distante do personagem, acreditar que isso é fruto da idade e da experiência é algo crível e essa mudança de personalidade foi comprada. O lançamento de 2019, contudo, destrói qualquer chance de unir logicamente todas as obras.

O Frankenstein que se tornou a franquia tem alguns fatos geradores. A irregularidade dos lançamentos por conta da receptividade do público é um deles. Porém, o principal é não ter criado uma linha mestra para que Rambo pudesse caminhar sozinho. Stallone dividiu os créditos do roteiro com pessoas diferentes em cada filme. Até James Cameron já participou em “Rambo II: A Missão”. Não necessariamente pessoas ligadas ao gênero se meteram, o que fez com que alguns clichês fossem usados como tapa-buracos. O próprio Cameron, por exemplo, utilizou de frases de pára-choque de caminhão e decisões completamente tresloucadas para criar um antagonista que fizesse jus aos caos e destruição perpetrado pelo protagonista.

Dessa vez, Sly divide o papel de roteirista com Matthew Cirulnick, criador da série “Absentia”. Todos os equívocos de representação cometidos em “Rambo III” ressurgem, ainda que com certo filtro da razoabilidade. Se lá o povo afegão e a situação do país causada pela invasão soviética dos anos 1970 e 1980 foram tratadas com um city tour do protagonista, dessa vez o texto do filme se alia à forma mais preconceituosa de se representar a fronteira dos Esados Unidos com o México.

Quando “Rambo: Até o Fim” tem início, somos apresentados ao senhor John, que goza de sua aposentadoria em uma fazenda do Arizona, se preocupando apenas em cuidar de seus cavalos ao lado de sua sobrinha e Maria (Adriana Barraza). Rambo foi da Birmânia para lá assim que sua irmã faleceu e a jovem Gabrielle (Yvette Monreal) ficou sem os pais. Ela nunca aceitou o abandono de seu pai, que foi morar no México. Quando uma amiga entra em contato dizendo que sabe o paradeiro do fujão, Gabrielle pega seu carro e atravessa a fronteira.

O primeiro incômodo a ser superado pelo espectador é a abertura digna de uma série de televisão, com os créditos surgindo como uma vinheta. Só que não para por aí. A sequência de estereótipos agressivamente destilados é infinita, sempre vinculado os personagens norte-americanos à inocência e à injustiça e os mexicanos como malandros, golpistas, cafetões e – claro – traficante de drogas.

Talvez como uma homenagem reversa às produções do país vizinho, a direção de Adrian Grunberg abusa de diálogos novelescos, com duas câmeras posicionadas atrás dos ombros de cada interlocutor. Até o meio do segundo ato, “Rambo: Até o Fim” é essa variante de clichês assombrosos de personagens e enquadramentos pouco inspirados. Grunberg lança aqui seu segundo longa-metragem como diretor. Sua obra anterior, “Plano de Fuga” (2012), também é ambientada no México e é provável que não tenha sido coincidência essa escolha. Tanto em “A Lenda do Zorro” quanto em “Soldado Anônimo” (ambos de 2015), ele atuou como assistente de direção na unidade de produção do México. Ainda foi diretor de segunda unidade da temporada mais recente de “Narcos” que se passa onde? Pois é. Ou seja, quem gosta de um México estereotipado, aquele que as autoridades dos Estados Unidos gostam de pregar como risco ao seu país, adora chamar Adrian Grunberg para seu projeto.

Já Rambo, vejam só, é um vovô cowboy boa gente por quase todo o tempo do filme. O roteiro chega a se perder no desenvolvimento da trama de Gabrielle de tal modo, que a montagem precisa inserir imagens aleatórias do protagonista fazendo qualquer coisa para que não nos esqueçamos que estamos diante de um filme da franquia. No auge da narrativa novelesca, mostra o protagonista conversando com Maria em dois idiomas: um pergunta em inglês e outro responde em espanhol – para, logo depois, aquele um perguntar em espanhol para o outro responder em inglês.

Só que Rambo precisa ficar violento, momento em que o roteiro se lembra que ele é um ex-soldado traumatizado com a Guerra do Vietnã. A solução é inventar alguns remédios controlados que ele deixa de tomar quando vai resgatar sua sobrinha. Quando isso ocorre, “Rambo: Até o Fim” começa a beber da fonte da trilogia “Busca Implacável”, que a partir do sub gênero de filmes de resgate, fez sucesso no início da década. Todavia, a ausência dos medicamentos em nada muda a rotina de Rambo, inserindo um elemento que não se sustenta, um placebo para quem faz questão de pautar a experiência de assistir o filme em uma lógica sustentável.

Uma proposta de filme que tenta alcançar muitos objetivos e não sai do lugar. Quer tentar criar um vínculo sentimental com Gabrielle, parte de uma família de Rambo a qual nunca fomos apresentados; quer justificar o sadismo dos vilões, os irmãos Martinez; quer gerar motivações extras para o ressurgimento de Rambo. Parece que estamos diante de uma exposição de motivos sem fim, baseando suas escolhas de narrativas requentando produtos, do já mencionado “Busca Implacável” à série “24 Horas”, passando por “Esqueceram de Mim”. Um longa-metragem que não confia no potencial do universo por ele criado. Ainda dá a Paz Vega um papel com função totalmente descartável.

Por fim, ainda aborda a violência de maneira delicadamente perigosa. Da mesma maneira que em março de 2002 fomos apresentados a Jack Bauer, personagem vivido por Kiefer Sutherland em “24 Horas”, aqui também temos um contexto histórico favorável ao reconhecimento como herói de pessoas que aplicam a justiça com as próprias mãos de maneira desproporcional. Àquela época, o mundo ocidental iniciava uma jornada de neurose extrema provocada pelos ataques ao World Trade Center em 11 de setembro do ano anterior. Naquele ambiente, a figura de um agente do governo que, movido pelo sequestro da filha, se permite matar e torturar quem quer que fosse e a qualquer preço, foi muito bem aceita pelo público.

Quando do lançamento de “Rambo: Até o Fim” passamos por situação parecida. A escalada de violência, causada por uma crise econômica mundial, começa a provocar uma corrida por novos vilões a serem combatidos com guerra, algo que os governos republicanos do Estados Unidos costumam promover com sucesso. É dessa maneira que o longa-metragem se apresenta, permitindo uma carnificina sanguinolenta que consegue superar o clímax de “Rambo II: A Missão”.

Mais do que todas essas incoerências narrativas dentro do filme e no diálogo com as outras obras dessa personagem. Mais do que a pobreza estética e as atuações constrangedoras de Stallone. A grande questão a ser monitorada é a receptividade do público, análise que deverá ultrapassar a frieza dos números da bilheteria. Entender John Rambo como herói, partindo da representação desse filme (algo que “Rambo IV” conseguiu pôr em xeque) seria uma resposta do mercado capaz de movimentar os filmes desse gênero de maneira como há muito não víamos.

 

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