Rambo IV

Sem Nostalgia

Por Jorge Cruz

Quando lançado em 2008, “Rambo IV” decepcionou nas bilheterias. Ao custo de 50 milhões de dólares (13 a menos do que seu antecessor custou vinte anos antes) novamente não se pagou nos Estados Unidos, rendendo 43 milhões (11 a menos do que “Rambo III”). Ao redor do mundo, o resultado foi pior: 70 milhões em caixa, enquanto o terceiro filme da franquia, em contextos econômicos bem diferentes, já havia naufragado com seus 135 milhões.

Só que ao contrário da tragédia de “Rambo III”, o longa-metragem que levou de volta o boina-verde aos cinemas na esteira do sucesso de “Rocky Balboa” (Sylvester Stallone, 2006) é um produto muito mais consistente. Ao mesmo tempo que atualiza a linguagem e o insere na lógica dos filmes de ação de sua época, traz dignidade e coerência ao protagonista. A direção do próprio Stallone insere o espectador de vez na ação, com cenas nas florestas com ambientações e ritmos que bebem na fonte de “Apocalypto”, capitaneado por Mel Gibson dois anos antes. Talvez na busca de um reboot tão arrebatador quanto o do boxeador mais popular da Filadélfia, as fraquezas do filme tenham se sobressaído maneira que a obra sofresse repulsa exagerada da crítica. 

A maneira com a qual “Rambo IV” se apresenta nos coloca na ação de forma bem mais didática, como os filmes da época gostavam de fazer. A contextualização a partir de reportagens sobre a situação da Birmânia ao longo dos créditos se afasta da clássica “caminhada do herói” típica dos filmes dos anos 1980. O que antes era mais do mesmo, dada a profusão de produções similares, vista uma década depois e de maneira pinçada, faz certo sentido histórico. Na trilha sonora não era mais possível contar com Jerry Goldsmith, falecido em 2004. A ressignificação do tema de Rambo ficaria a cargo de Brian Tyler. Parece que sua maneira de trabalhar, se adaptando ao material pré-existente, é uma característica valorizada em Hollywood. Ele faria o mesmo nas franquias “Velozes e Furiosos”, “Homem de Ferro”, “Thor” e “Os Vingadores”.

O argumento do roteiro de Stallone e Art Monterastelli envelheceu bem. Na época boa parte torceu o nariz para essa obra, mas uma nova visita a “Rambo IV” o revelou menos trágico do que pareceu quando de seu lançamento. Partindo da ajuda do ex-soldado a um grupo em missão humanitária na Birmânia, o protagonista se apresenta como um descrente da paz. Essa visão se revelava de certa forma anacrônica em uma época em que a tática bélica de George W. Bush se mostrava uma farsa. Isso afasta ainda mais John Rambo da ética do herói, algo que a expectativa do momento do lançamento nos cinemas. A frase que talvez resuma da melhor forma essa visão é “sem armas não se muda nada”, dita quando o protagonista tenta convencer os religiosos norte-americanos a não cumprirem seu objetivo de levar medicamentos aos nativos que sofriam com o conflito.

Vistos com os olhos de uma Hollywood que tem abraçado a ideia de que “todas as vidas importam”, o abandono de Rambo como figura mitológica pode ser entendido no próprio filme – mesmo que essa camada seja criada por acidente e dependa da máxima boa vontade de quem assiste. Foi escalado para a montagem Sean Albertson, o mesmo de “Rocky Balboa”. Sua parceria com a direção de Stallone repete a união da proximidade da ação, com os cortes rápidos e a ultraviolência, uma tônica dos filmes do gênero à época. É uma reconfiguração estética da franquia que permite uma reconfiguração também do protagonista. Esse debate em cima da questão ética de missões humanitárias é uma nova incursão estrangeira (feita de forma execrável em “Rambo III”) e vira uma camada que, se quase tão rasa quanto as outras, é adicionada apenas nessa produção.

Claro que o mote do resgate como motivação do personagem existe, uma vez que foi criada essa encruzilhada insolucionável na franquia. Assim como em “Rambo II: A Missão” há uma predileção pelas cenas noturnas – e o trabalho de Stallone na direção não é tão bom quanto o de Peter MacDonald. A única incoerência é trazer no segundo ato um Rambo mais estrategista, menos reativo – porém a produção seguinte parte daí para mostrar que na verdade ele somou experiências. Uma mudança que não deve ser considerada tão brusca, já que a história se passa vinte anos depois de “Rambo III”

Com uma escalada de violência impressionante, a experiência de assistir “Rambo IV” poderá surpreender e convencer alguns de que o filme foi tratado com certa injustiça. Talvez a ausência do fator nostalgia em cima do personagem e a insistência em mostrar sua verdade como absoluta tenha pesado, já que sua forma de pensar e agir não se enquadrava no que era aceitável. Acabou se tornando uma daquelas obras esquecidas e quase unanimemente execradas, mas que merecem outra chance.

 

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