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Pacificado

Bem além do necessidade existe a análise

Por Ciro Araujo

Pacificado

O que faz um filme se distanciar da realidade? E o que o faz se aproximar? A verossimilhança é um caso trágico de tentativas e mais tentativas de encontrar um espelho do realismo quando na narrativa pode-se mais. Secar a atuação, por exemplo, tornando-a impassiva, é uma forma. É estranho falar dessa forma para “Pacificado”, primeiro filme de Paxton Winters, mas cabe, pois seu longa é a afeição perfeita da visão extraterrestre de fora para com o Brasil. O crime é ligado à pobreza que é ligada à ignorância que é ligada à violência e toda essa teia está ali, exposta ao mundo.

Impressiona quando a espetacularização da favela se tornou um assunto tão controverso no espaço da sétima arte brasileira. Certo, é verdade que a realidade está ali, retratada; mas diante dela, existe motivos para todo o trabalho girar entorno de uma descaracterização da cultura? Paxton ao menos possui uma sensibilidade de compreender que filmes do mesmo gênero não caia em certas cenas nas mãos erradas. A montagem, que se controla com garras da imagem corrupta, é certeira. Méritos para Affonso Gonçalves, brasileiro já estabelecido nos “states”, e Aylin Tinel. Para além do mixado, existe o que foi gravado. Essa questão circula toda a cultura da câmera como observador, o objeto mágico que pré-definiu como tudo seria observado. Planos sequências ambiciosos, câmera na mão. São checklists básicos de uma produção clássica de fora para dentro. Darren Aronofsky assina também a produção, o que cria todo um cosmos que explicam as filmagens de “Pacificado”. Não é preciso compreender todo esse pano de fundo para já interpretar essa visão extraterritorial que é estranhamente bela por suas cores e uma proximidade maquiada de exuberância ou qualquer coisa que defina o Brasil.

Todavia, Paxton é alguém obstinado. Decide comandar os atores através de uma atuação cem porcento realista – sempre com exceções. Acredita nas gírias, nos palavrões, em tudo para alcançar essa imersão proposta. Percorremos um cenário labiríntico do Morro dos Prazeres. De fato, essa câmera mais abaixo, próxima dos personagens, entrega o senso da realidade. É irônico como parece uma tentativa tão falha de entregar atmosfera para cumprir uma negociata básica para o público, quando diante das lentes ali existem personagens com algum sabor, algum interesse. Tita, criança calada sofrendo aos seus treze anos, parece se afeiçoar com o coming of age que está em alta. A relação conturbada e corrupta entre filha e mãe marginalizadas (outra tendência, visto em “Lingui, The Sacred Bonds” ou “Freda”), ou talvez a queda da masculinidade violenta do personagem de Jaca, interpretado por Bukassa Kabengele, que apesar de remeter aos grandes anti-heróis de Kurosawa, não perpassa. Todas essas texturas seriam bem-vindas em uma obra sobre a vivência dentro do morro. Mas a opção mais fácil é se associar cada vez mais justamente nessa visão do dramalhão norte-americano. As análises são rasas, focadas na ação imediata da cena.

A imediatez reflete automaticamente em seu roteiro, que procura em cópia de outros filmes sobre criminalidade e marginalização a fórmula da tensão. E ele não a encontra, porque acredita fielmente que está em um bom caminho. Em determinado momento, a música se intensifica, sugerindo que algo irá acontecer. Mas afinal, o quê sentimos? Medo, de algo acontecer? O anticlímax faz parte de “Pacificado”, uma necessidade aflorada dele de ser grande, apesar de não o ser. Inércia, por falta de palavra melhor. Os diálogos que possuem o mínimo de curiosidade por esse pequeno mundo criado pelo texto, não é nada além de motivos para o crime ser filmado.

E ao seu final, Paxton Winters decide ainda revogar o pouco que conseguiu construir, trazendo o amargor com invenção dramática. À lá séries americanas como “Breaking Bad”, gosta de um retorno ao crime, como se explicasse a origem desses personagens, negros, pobres, favelados. Como impossível de fugir, apesar de todas as ponderações sobre escapar. O retorno não é perverso, nem um pouco. É, na realidade, um glamour encontrado para explicar o ciclo no Rio de Janeiro da briga entre milícia e boca, com direito à traficante maçante e estereotipado e um retrato esquisito da polícia. Em certa cena, dois policiais representando o bom e o ruim, o corrupto e aquele que quer fazer o certo. Que realidade é essa que procura tanto um espelho, mas também o espetáculo? Ou aquele que não se aprofunda para além de apenas um círculo criminal?

2 Nota do Crítico 5 1

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