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Freda

Corra! Pois pode perder sua passagem

Por Ciro Araujo

Durante o Olhar de Cinema de 2022

Freda

Haiti é um país distante. Não geograficamente, mas o quão estranho ele é; São anos de momentos definidores na pequena ilha caribenha, pela ditadura dos Doc, pelos inúmeros golpes de estado ou pelo sismo de 2010. Não há equilíbrio, anos de tranquilidade no Estado. A governabilidade dentro dali parece, quando analisada de fora fria e impessoal, impossível. A exemplo, dentro de todos os países das Américas, é o com menor confiabilidade na vacinação. Entra a dúvida: como governar um lugar tão longínquo de futuro? É através desse turbilhão efervescente que “Freda”, da cineasta Gessica Généus, apresenta um drama pessoal ligando as problemáticas socioculturais de Porto Príncipe e as crescentes manifestações que ocorrem no país, sem faltar de suas críticas à máquina neocolonial.

De forma limpa e clara, a logo da Quinzena dos Diretores aparece na tela. É, sobretudo, também uma seleção de Cannes que, facilitada pela língua, compreendeu-se a necessidade do filme. Estranha, mas simultaneamente comum, a obra de Généus é atravessada por uma narrativa tradicional e linear, sempre a demonstrar o social sob a ótica oprimida. Talvez possua força imageticamente, talvez exista valor dado dentro do resultado e do que enxergamos, mas não é nada além da palavra mencionada, comum. Claro, vai muito além de sua existência como forma, já que a obra possui potência quando analisada no plano sociopolítico. A produção de personagens, como a da mãe de Freda (interpretada por Gaëlle Bien-Aimé), uma típica matriarca que precisa ser forte por necessidade, apesar de polêmica graças às decisões complexas; uma irmã mais nova que trilha o caminho perigoso e complicado, levando-a à sistemática rede de prostituição e violência doméstica; e por fim a protagonista – interpretada pela haitiana Nehemie Bastien – homônima ao filme, uma mulher que aspira desejos de mudança do país, que pensa e fala em revolução e não sabe como agir na espiral bizarra do Haiti.

Todos os personagens fazem parte do que é o tradicionalismo narrativo no filme. Elevando-se através de uma triangulação, o texto é ardiloso para trabalhar as mudanças promovidas ao decorrer dele, mas que sempre possui um final direcionamento à protagonista. Então, através do uso de deuteragonistas, sua estrutura visa brincar com uma falsa distribuição para permitir que Freda consiga sair de um estado catatônico. Acaba que uma afirmação assim pode sugerir que a obra se utiliza seus personagens com apenas um intuito, porém não é o caso. Engana-se que não é possível absorver detalhes tão adjacentes das duas, uma vez que representam diversos pontos específicos e característicos da cultura latino-americana, especialmente sua parte espanhola.

Em sua forma, o que talvez chame a atenção é seu uso do real para contribuir seu progredir. “Freda” aproveita de imagens de manifestações que ocorreram durante o Haiti, especialmente durante a pandemia, e aplica uma mudança de perspectiva para sua narração. É aproveitador e útil, querendo ou não. Ainda assim, esse uso faz questionar a respeito do quanto o filme pode ser mais do que seu mecanismo se demonstra. Há algo além da imagem? Se há, por que se encontra imediatamente aparada, esterilizada na estrutura padrão de um filme que em sua gramática pura, é apenas… comum. Então chama a atenção que Cannes o escolha como parte da Quinzena, por ser simplesmente o já visionado diversas e diferentes vezes possíveis; Contudo, também não chama a atenção, pois, existe a escuridão brocada dentro do país caribenho que o tornou um local tão diferente da média no Triângulo e cercanias.

O que torna o filme de Gessica Généus especial é uma questão complicada. Todavia, há de se celebrar suas caracterizações típicas tão bizarramente reconhecíveis. A religião e todo o envolvimento das derivações entre neopentecostais e protestantes, a divisão e briga com religiões de matrizes africanas, a corrupção dentro dessa esfera. “Freda” é também extremamente antipática à tradicional politicagem. O olhar promovido é de uma fobia para soluções através de representantes clássicos do povo e o correlaciona ao tráfico sexual. O tradicional female gaze – visão ou decisões de filmar com características de olhar feminino – está aqui como necessidade, graças à trindade protagonista previamente apresentada. Elas conversam imediatamente com o amarrado roteiro, que além de realmente fechado e instigante, nada a mais fala. Muito formalismo para o que talvez não mereceria este bendito formalismo, sendo de origem latino-americana. Estamos todos na mesma fossa, ainda assim. E não falta ninguém querer se mudar.

3 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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