Orwell: 2+2 = 5

O que importa já foi escrito

Por João Lanari Bo

Festival de Cannes 2025

Orwell: 2+2 = 5

“Orwell: 2+2 = 5” é um documentário sobre o escritor inglês George Orwell, famoso autor da matriz moderna das narrativas distópicas, “1984”. Trata-se de um filme-fluxo, ou seja: um filme que segue tendência contemporânea (iniciada nos anos 2000) que prioriza a experiência sensorial e a temporalidade em detrimento de uma narrativa linear. Foca no registro contínuo de imagens, frequentemente utilizando planos longos e câmera instável para criar uma atmosfera imersiva, “desdramatizando” o enredo e deixando o tempo “escorrer” na tela.

O termo também pode se referir a produções documentais que buscam acompanhar a fluidez da vida, memórias ou espaços, desprovidos de uma estrutura documental tradicional.

O leitor terá notado uma clareza no texto acima, algo artificial, com uma sintaxe toda encaixada: sim, é um texto da IA respondendo à pergunta o que é cinema documental de fluxo. Agora, imagine-se a construção de uma narrativa documental recorrendo à IA, em uma escala que comporte quase duas horas de duração, produzindo respostas para as questões básicas examinadas por Orwell, tais como: nacionalismo, totalitarismo, socialismo, propaganda, linguagem, classe social, trabalho, pobreza, imperialismo, verdade, história e literatura. Essa parece ter sido a estratégia do haitiano Raoul Peck, diretor do filme.

Os escritos de Orwell refletem sua trajetória intelectual. “Orwell: 2+2 = 5” recupera todas essas vertentes, alinhando imagens de arquivo com cenas mais contemporâneas, como a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Como se sabe, nessa data partidários do então presidente Donald Trump foram por ele convocados a se reunirem em Washington, a fim de protestar contra o resultado da eleição presidencial de 2020. Trump é um dos principais personagens que encarna a deriva totalitária dos nossos dias, como enfatiza o documentário em tela.

Mas não é apenas Trump: Putin e suas justificativas sobre a “operação especial” que desencadeou em fevereiro de 2022, a invasão da Ucrânia, também é figura de destaque. E outros fatos menos batidos na imprensa ocidental, como o golpe de Estado que ocorreu em Mianmar, no dia 1º de fevereiro de 2021, quando o exército declarou estado de emergência e anunciou que o poder havia sido entregue ao comandante-chefe das forças armadas, Min Aung Hlaing. Talvez seja no tema Mianmar que “Orwell: 2+2 = 5” dedique mais tempo a percorrer as dúvidas e anseios de Orwell, já que o escritor atuou no país, então colônia britânica, conhecida como Birmânia, como polícia do exército imperial, em 1922. George Orwell, cujo nome verdadeiro era Eric Arthur Blair, nasceu na Índia em 1903, ou seja, ele é fruto do colonialismo como modo de vida – mais tarde, tornou-se crítico dessas origens.

Orwell é o narrador que costura os múltiplos acontecimentos, através da voz do ator Damian Lewis. Ele foi um intelectual engajado: integrou o contingente de voluntários ingleses que foi a Espanha lutar contra as forças reacionárias de Franco. Mas foi nesse contexto que se decepcionou inapelavelmente com o stalinismo, ao testemunhar o assassinato do líder catalão trotskista, Andreu Nin, por agentes soviéticos. Seu romance satírico, A Revolução dos Bichos, denuncia o totalitarismo socialista da URSS.

A linguagem em fluxo, que procura acompanhar a fluidez da História tal como vivenciada pelo escritor, termina produzindo um certo entorpecimento de imagens, que não sintoniza, em vários momentos, com a inteligência perspicaz, aliada a uma sensibilidade das injustiças sociais, de George Orwell. Dos sobrevoos políticos o documentário passa a uma crítica feroz sobre o totalitarismo implícito na atuação dos grandes grupos midiáticos, chegando ao cenário contemporâneo das big techs e à explosão das redes sociais, o chamado “capitalismo da vigilância”. Até os irmãos Marinho, proprietários do grupo Globo, aparecem no filme. É muito conteúdo para uma biografia, pode-se argumentar, mesmo em se tratando de um escritor que indiscutivelmente segue popular, como Orwell.

Pontuando o fluxo, Peck utilizou clipes dos filmes que se basearam nos livros de Orwell, como “1984” – duas versões, de 1956 e 2023 – e “A Revolução dos Bichos”, também duas produções, uma animação em 1954 e uma versão live-action com animais em 1999 (nova produção está  prevista para estrear em maio de 2026).

Em uma famosa frase a ele atribuída, citada no filme, Orwell afirma que o que importa já foi escrito. Uma breve consulta à IA revela, entretanto, que a frase é considerada uma atribuição apócrifa… embora encapsule a relevância atual de seus temas de distopia e controle, não é uma citação direta de George Orwell.

Se “1984” foi um livro que serviu para alertar sobre os caminhos autoritários no mundo, “Orwell: 2+2 = 5” quer mostrar o mundo tal como experimentamos – cheio de tentações totalitárias.

3 Nota do Crítico 5 1

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