Onde Estamos Seguros
De volta para o presente
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o Festival Cine-PE 2026
Thais Scabio e Gilberto Caetano são diretores estreantes em longas de Diadema, grande São Paulo. Não apenas essa é uma área periférica, como um lugar do qual durante muito tempo poucas esperanças eram nutridas; estamos falando de chance de ascensão social de qualquer espécie, seja qual for o sonho. A existência de “Onde Estamos Seguros”, por si só, já se configura como um novo tempo, um momento onde tudo mudou. Hoje, Scabio e Caetano podem estar na competição de um festival como o Cine PE declarando seu orgulho – e mostrando que o primeiro passo é apenas um passo. Me lembro de 10 anos atrás, vermos Ary Rosa e Glenda Nicácio desbravar o Festival de Brasília; a associação é tão forte quanto óbvia, e a força do discurso é a mola que move esse roteiro pra frente.
Desvendar o núcleo criativo de periferias, e no percurso encontrar OVNIs tão bem-vindos quanto “Onde Estamos Seguros”, é um campo curatorial dos mais ricos. De que outro motivo, que não através do Cine PE, conseguiríamos descobrir uma obra de conversa tão franca quanto essa? Nada é escamoteado pelos autores, e existe até uma sofisticação na maneira como o espectador alcança a tragédia inicial da obra, que está fora do tempo e do plano. Mas não é difícil imaginar do que foge um casal de namorados preto, vivendo no Brasil de 2026 – ou, no Brasil de sempre. Mais interessante é o que está nas entrelinhas: Rafaela é dona de uma típica casa grande do passado, hoje pertencente a alguém como ela e sua família miscigenada assim como o país.
Rafaela e Leandro são pessoas pretas que sofreram violência provavelmente a vida inteira e, vítimas recentes de novo ato cruel, se refugiam no passado escravocrata para, uma vez mais, encontrar-se na posição de vítimas, em eterna recorrência. É como se “Onde Estamos Seguros” nos dissesse, a despeito de seu título, que não existe fuga para o horror do racismo. A segurança é um idílio que não se permite a um grupo de pessoas, que são perseguidas no presente, no passado e mesmo em deslocamentos temporais, hibridismos históricos, continuam servindo de muleta para um horror cíclico. É chegada então a hora de enfrentar os fantasmas que, já que não cessarão, precisam ser exterminados, da maneira que for; se houver a necessidade de exorcismo, ou se precisarmos apelar para a salvação do fogo, e ainda se tudo for uma assombração, ainda assim precisa morrer.
“Onde Estamos Seguros” é uma produção pra lá de independente, orçamento baixíssimo, e isso não está impresso de maneira tímida no plano. Porém, estamos também falando de um filme de terror social e psicológico, que parte para o que há de mais concreto no horror – e pasmem, o filme se justifica lá, com garbo. Ainda assim,estão nas entrelinhas (e além delas) alguma precariedade narrativa, uns diálogos desencaixados, ao menos um sotaque absolutamente risível e a direção de atores que nem sempre acerta todas as nuances. Mas Andrio Candido é um ator que merece atenção, sem dúvida; independente de ainda lhe faltar bagagem, já está claro que alguns anos de estofo trarão para o cinema uma estrela, e um belo ator.
Scabio e Caetano tem vozes muito claras, e isso é tanto seu maior aliado quanto uma tecla de atenção. Porque sua mensagem é, a um só tempo, poderosa e óbvia; talvez nós, eu que escrevo esse texto e vocês que o leem, sejamos o público já letrado a quem essa obra se comunica diretamente, e “Onde Estamos Seguros” é uma porrada para não-iniciados. Ainda assim, narrativamente, existe uma falta de burilação no roteiro, principalmente. Mas esse é o primeiro passo desses cineastas e assim como “Café com Canela” foi uma carta de apresentação bem forte para Ary e Glenda, aqui temos um início de percurso que eu espero que não seja alijado do espectador, que necessita desse olhar confrontador.
“Onde Estamos Seguros” funciona no gênero, funciona na alegoria, e funciona menos no flerte com o naturalismo, porque seus autores provavelmente queriam jogar essa fatia mais literalmente. Não há mal algum nisso, mas é necessário a experiência maior para que esse equilíbrio não se torne um calcanhar para suas obras. Ainda que diante do óbvio personagem vivido por Mauricio Mascarenhas, o filme segue interessando do início ao fim, ainda que nada de muito novo seja dito. As fontes de inspiração, o cinema de Jordan Peele e Nia DaCosta é exemplar de verdade, mas também esperamos que Scabio e Caetano avancem para a região que eles melhor representaram aqui, e que o ajuste fino chegue o mais rápido possível.
Nota: 3/5
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