O Terremoto de Spitak

Nos abalos de 88

Por Vitor Velloso

Cinema Virtual

Com os abalos recentes das plataformas de streaming e seus lançamentos dolorosos, “O Terremoto de Spitak” vem como a obra mais sincera dentre as últimas. Não por um mérito próprio em conceber seu próprio drama, mas por não se apoiar diretamente nas bases da estrutura batida industrial, além do mais o terremoto de fato existiu…em 88.

E se o leitor pensa que por estas linhas irá ter uma surpresa cândida em meio ao mar de xerox…não. A dramatização não está ancorada no conceito formulaico de uma filme-desastre, ou seja, possui as rédeas de por onde caminha, consegue soar minimamente sincero durante a maior parte, pois não ilude o público com um clichê que se traveste de originalidade, nem desloca sua narrativa para construir algo que lhe dê um ar “autoral”. O longa parece bastante consciente de onde quer chegar com sua história, e ainda que mire, claramente, uma moral cristã, não transborda isso em uma estetização de libertação, redenção e falibilidade humana em meio ao “caos” (apenas cede à isso em uns takes). 

Pelo contrário, o desvio dessa sinceridade está propriamente na forma, mas não por essa linguagem-propaganda-evangelizadora. Está na consciência de um tom monocromático, que reduz a paleta ao cinza, que burocratiza suas construções de mise-èn-scene, no jogo básico, geral (com todo o sofrimento e destruição), ao close, é o arquétipo mais conhecido desse excesso do drama/dor. É simples, funcional, possui um gatilho fácil, gera um cansaço relativamente bem-vindo pra obra, mas possui duas questões: deixa tudo muito cíclico, o que abre margem ao tédio, e demonstra que essa pseudo-sinceridade presente nos primeiros minutos da obra (com efeitos duvidosos para simular o terremoto), está ancorada diretamente em um conteúdo programático em sua linguagem. Seguindo uma cartilha, não da Trumpland, mas aquela européia, que consegue mercado com certa facilidade ao redor do mundo, e que um dia conseguiu ser laureado em festivais de cinema. Mas que se encontra datada. 

Talvez um desvio conservador, meio “Dheepan – O Refúgio” (2015). Aliás, é de se imaginar que Cannes teve de compreender seu pragmatismo ideológico progressista-liberal, através dessa estetização da superfície. Em meio à tantos problemas ao longo dos anos, teve de ceder ao primitivismo do discurso com a forma que parece cara à eles. “The Square” (2017) foi um deslize terrível. Mas retornemos aos abalos sísmicos de “O Terremoto de Spitak”. Que possui direção assinada por Alexandr Kott, que só foi citado neste momento do texto não por acaso, pois sua forma está tão centralizada numa padronização que busca fugir de uma norte-americanização de gênese, mas sim na venda de uma ótica “própria”-distribuída. Ou seja, não se rende ao imperialismo norte-americano, para se vender aos europeus. 

A filmografia de Kott é um ode ao comercial, um aceno à produtoras e distribuidoras estrangeiras, comédias pastiches, chancadescas. E quando busca algo distinto de sua zona de conforto explícita, adentra noutra. Tudo em “O Terremoto de Spitak” soa falso, o drama da fotógrafa francesa, o pai que sai desesperado à procura de sua filha, seu delírio ao encontrar os corpos nos escombros, seu martírio, sua dor etc. Tudo parece estar colocado ali para que o espectador consiga ser introduzido no universo do filme, como um pouso de albatroz, pois não há uma construção que consiga sustentar isso. A falta de conscientização do projeto diante de tamanha destruição é explicitada por volta de metade da projeção, onde já não lembramos mais qual a situação eixo do longa, muito menos a razão de estarmos presenciando todo aquele sofrimento. 

E quando o diretor acreditar estar sendo potente com alguma situação, caso do homem que quebra os próprios óculos para não ver a desgraça que acometeu o lugar, torna o exercício didático e expositivo, recorrendo ao desfoque de sua miopia como objetiva da mise-èn-scene. O maior desafio para a montagem, neste caso, é a inclusão de personagens que apenas atravessam a narrativa, mas não ajudam a compôr o drama que a norteia, pois apenas deslocam o foco. E essa perda de direcionamento torna o filme tão cansativo, pela sua inexatidão de condução, pelo descrédito a determinadas dores ali apresentadas. 

Não é reacionário ao compreender uma falta de articulação do Estado ali, mas parece entender que essa moral divina, cristã, uma situação que é incumbida por uma vontade exterior-superior, é a única salvação para àquelas vidas. Uma leitura no mínimo simplista de uma situação tão mais complexa que apenas o drama do protagonista, não à toa os outros personagens são esquecidos, desmembrados. A luz no fim do túnel não deve existir, nem na quarentena, nos salve Fernando Reinach.

Trailer

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