O Mago do Kremlin

Democracia Soberana

Por João Lanari Bo

Festival de Veneza 2025

O Mago do Kremlin

O Mago do Kremlin”, que Olivier Assayas dirigiu em 2025, é um autêntico docudrama político. Inspirado em fatos reais – a ascensão de Vladimir Putin na Presidência da Rússia a partir do ano 2000 – o filme tem apenas um personagem, o principal, que não usa o nome real, apesar de ser o narrador da história e ter de fato exercido um papel preponderante na escalada de Putin.

Na diegese cinematográfica, esse personagem atende pelo nome de Vadim Baranov (Paul Dano). Na vida real, o mago chama-se Vladislav Surkov, o poderoso assessor político do líder russo. O diretor de “O Mago do Kremlin” resumiu a diferença entre os dois afirmando de forma direta: Surkov é detestável; nosso Baranov conserva certa humanidade. Ambos, Surkov (real) e Baranov (ficcional), são pessoas inteligentes e cínicas, que gozaram de uma proximidade fundamental para Putin – no filme encarnado por Jude Law. Não está clara a definição de “humanidade” para Assayas, se com isso tentou amenizar ou polir a imagem do assessor. Funciona como “licença dramática”, e só.

Na vida real, entra em cena um dos mais refinados e complexos personagens da era Putin – Vladislav Surkov. Entre outras façanhas, ele é creditado como arquiteto da “democracia soberana” posta em prática a partir dos anos 2000 – para os mais loquazes, ele seria nada menos nada mais do que o arquiteto da “política pós-moderna”. Democracia não pode sobrepujar-se à soberania, mesmo ao custo do descarte de certas liberdades. Eleições são convocadas, candidatos fazem campanha, votos são lançados, urnas são abertas e o mesmo homem vence, sempre. Para montar esse, digamos, sistema democrático, Surkov esmerou-se em criar partidos políticos, alguns leais e incondicionais apoiadores, outros falsos e verdadeiros opositores.

Adicione-se controle da mídia, do judiciário, recrutamento de organizações juvenis…e o modelo de “democracia administrada” consolidou-se.

O Mago do Kremlin” esquivou-se de mostrar várias facetas de Surkov. Quando era vice-chefe de gabinete no Kremlin, ele pendurou, ao lado de fotografias de Putin e Medvedev, imagens de Che Guevara, Obama e Bismarck, além de John Lennon, Jorge Luis Borges e Joseph Brodsky. Nessas direções, sua personalidade projetava-se: em 2009 publicou, com o pseudônimo “Nathan Dubovitsky”, o romance pós-moderno “Okolonolia (gangsta fiction)”, algo como “Próximo ao Zero” (“Gangsta fiction” aparece grafado no alfabeto ocidental). Ninguém duvidou que era ele o ghost-writer: sua mulher chama-se Natalia Dubovitskaja. Um texto, para os críticos mordazes, que oscila entre cinismo e pretensão, fraudes e assassinatos, onde quem ganha sempre é o dinheiro. Elites russas são corruptas, mas o pior mesmo são os liberais que insistem em liberdades e direitos.

Nada disso aparece no filme, baseado no livro homônimo de Giuliano Da Empoli, que colaborou no roteiro com Olivier Assayas e o escritor Emmanuel Carrère.

O Mago do Kremlin” funciona melhor como reconstituição da trajetória meteórica de Vladimir Putin, ex-funcionário da KGB que galgou postos e terminou por ganhar a confiança de Boris Yeltsin, o primeiro Presidente eleito da Rússia. Em 31 de dezembro de 1999, véspera do fim do milênio, Yeltsin, debilitado por problemas de alcoolismo e saúde, vai a TV e fala à nação:

Tomei uma decisão. Pensei por um longo tempo e com muita dor. Hoje, no último dia do século que termina, renuncio. (…) Entendi que eu precisava fazer isso. A Rússia deve entrar no novo milênio com novos políticos, com novos rostos” (…) quero lhes pedir desculpas.

Ato contínuo, indica Putin como seu candidato nas eleições previstas para março do ano 2000. Em 1999 as forças políticas ainda se agrupavam em torno dos famosos oligarcas, biliardários que se aproveitaram da derrocada do comunismo e adquiriram ativos valiosíssimos, petróleo e minerais, fundaram bancos e controlaram a mídia. No filme o oligarca é Boris Berezovsky (Will Keen), fundamental para Putin – e mais tarde isolado pelo Presidente russo.

O grande feito de Putin tinha sido encarar, no mês seguinte (setembro de 1999) à sua posse como Primeiro-Ministro, a terrível onda de ataques terroristas que explodiu prédios residenciais em três cidades, inclusive Moscou, matando mais de 300 pessoas, ferindo outras 1.000 e espalhando uma onda de medo pelo país. Putin afirmou que os terroristas na Chechênia eram os culpados, ordenou uma campanha aérea maciça na região do norte do Cáucaso, e bradou: Desculpem-me por dizer isso: vamos pegá-los até no banheiro. Vamos eliminá-los na latrina da casinha. Há, contudo, quem afirme que esses “ataques” foram plantados por agentes da FSB, a sucessora da KGB.

Tudo isso, e mais um pouco, está em “O Mago do Kremlin”, que faz do filme um documento histórico imprescindível.

4Nota do Crítico51

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