O Desafio

Esteroide caseiro

Por Vitor Velloso

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Como uma bela síntese da sociedade americana, “O Desafio” de Giles Alderson é o que o mercado norte-americano insiste em vender no gênero do terror. Um sadismo barato. Uma tentativa estapafúrdia de ser “gore”, jogando um ou outro elemento que tente tornar a experiência mais “complexa” e algumas referências a assassinos reais, para gerar aquele murmurinho pós sessão. O problema é que além da falta de atmosfera, que acaba transformando o projeto todo em uma espécie de teaser mal acabado de uma transa ruim de “Psicose” com “Jogos Mortais”, o filme acredita na densidade de seus personagens e é capaz de intensificar uma busca reflexiva de “Shakespeare esquizofrênico depois de 20 anos na academia”, em um plano específico onde o assassino encara uma caveira e parece zombar da encenação, o que poderia render uma risada, mas parece se levar a sério demais para isso.

E este é definitivamente um dos motores mais tenebrosos de “O Desafio”. Essa tentativa constante de ser levado a sério, o que anda na contramão da própria concepção narrativa, que é resumida em: casa, sequestro, cativeiro. Aí pra embolar um pouco o meio de campo, taca uns flashbacks, umas discussões ultra expositivas, uns plot twists envolvendo aquilo que é mais caro para o norte-americano: sua honra perante à sociedade. E se não a encontra, arrancará a liberdade dos outros, tudo para provar sua “superioridade”. É uma espécie de Necropolítica, mas que se vê na prática da maneira mais arcaica, como um pensamento miserável que não encontra uma solução analítica para os próprios problemas, despejando isso em um projeto que fetichiza, por exemplo, um carinho com sangue em uma criança, engolir inseto etc. É um caso já comum na indústria, o ego se sente ferido, é preciso barbarizar. Curiosamente, é quase o inverso da intencionalidade exposta no cinema de José Mojica Marins ou do filme “Bandido da Luz Vermelha” de Rogério Sganzerla, e com a avacalhação de tudo, ainda que a frase seja próxima.

Diferentemente de um modelo subdesenvolvido, onde essa barbaridade exposta torna-se nosso meio de expressão e de grito, há no mercado norte-americano uma necessidade de exagerar o trauma social e o gozo generalizado da sociedade pelo  fetichismo da violência e do abuso de poder, aqui traduzido na pele de um saco de músculo caucasiano. As cenas de “horror”, envolvendo insetos, torturas, carnes cortadas e comidas cruas (e todo esse blá blá blá de dar sono dos estadunidenses) são pra lá de repetitivas, parecendo retomar o que há de pior no Rob Zombie e essa cultura do “absurdo”, quando na verdade é uma reflexo da própria sociedade americana (sem a intenção de fazê-lo, mas como expressão fútil de algo que é desconhecido pela própria obra). Definitivamente a discussão acontece, não pela tradução livre dessas leituras, mas pela possibilidade de fazê-las. Até onde tudo aqui é inócuo?

Não seria um desenho, pouco provável, de uma soberba cultural que usa de mercado a violência, o sangue e os músculos como um retrato ignóbil e infantilizado do próprio sadismo? E que “O Desafio” estaria propondo aqui uma não-reflexão, mas uma superexposição da fórmula e da própria História do país? Que Giles concebe todas suas cenas dentro de uma padronização de linguagem, por acreditar que o cinema não deveria se curvar à cultura do extermínio? Ainda que improvável, as perguntas deixadas no ar podem ser levantadas e talvez respondidas (não seja necessariamente um exercício proveitoso, pois independente da intencionalidade proposta aqui), o filme, enquanto proposição de gênero também torna sua narrativa brusca, por todo instante tentar gerar um drama que tenta alcançar o ápice da negligência da atmosfera, concretizando tudo em um caminho direto e nada sutil, ainda que trabalhe determinadas nuances dos personagens. Tudo aqui se projeta em uma “bagunça” generalizada. Faltando pouco ao final, um teste de paciência é ofertado ao espectador, porque retrocede. O vilão tem cara de bebê, o cenário não faz sentido algum, exacerbam clichês e o público apenas implora para que os créditos subam.

“O Desafio” não é necessariamente a pior coisa do ano, longe disso, mas parece ser lançado em tempo hábil para tentar incomodar a audiência que se encontra “enclausurada”. Se alguém decidir levar para este lado, então estará assumindo que o universo dali é menos assassino que o nosso, ou vice-versa, já não sabemos mais onde a fronteira da realidade e da ficção está, apenas que na realidade brasileira, não é preciso tanto supino, só um terno e gravata.

Trailer

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